Sociedade

Professores em Portugal são os que revelam maior stress na Europa

24 março 2021 10:00

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Estudo europeu avalia condições de trabalho dos professores do 3.º ciclo (do 7.º ao 9.º ano) e destaca Portugal em diversas variáveis. Nenhuma delas animadora: professores nacionais são dos que têm maior stress, estão mais insatisfeitos com os salários e têm mais contratos a termo

24 março 2021 10:00

Quase todos os professores portugueses do 3.º ciclo do ensino básico, isto é, entre os 7.º e o 9.º anos, passam por momentos de “bastante” ou de “muito” stress durante o trabalho. Esta é uma das conclusões que salta à vista do relatório europeu publicado esta quarta-feira sob o título “Professores na Europa - Carreiras, Desenvolvimento e Bem-estar”, que revela que o “stress” é um problema para metade dos educadores europeus.

Portugal aparece no número um: perto de 90% dos professores nacionais (87,2%) queixam-se de algum tipo de stress. Para se ter uma ideia da diferença, imediatamente abaixo aparecem os professores húngaros e britânicos, mas é preciso recuar até aos 70%. Na categoria “muito stress”, os três países têm mais do dobro dos relatos da média europeia (16%) — 35%, no caso português. E quanto a “bastante stress”, mais de metade dos educadores portugueses responde afirmativamente (53%), enquanto os europeus com relatos deste tipo ficam-se pelos 31%.

Proporção de professores do 3º ciclo com “bastante” (“quite a bit”) ou “muito” (“a lot”) stress. Portugal aparece destacado em primeiro lugar

Proporção de professores do 3º ciclo com “bastante” (“quite a bit”) ou “muito” (“a lot”) stress. Portugal aparece destacado em primeiro lugar

imagem retirada do relatório ‘teachers in europe- careers, development and well-being’

Como o título indica, uma das variáveis fundamentais a ser avaliada pelo estudo, que cobre o período entre 2018 e 2020, é o bem-estar no trabalho e a forma como ele impacta a saúde mental e física dos profissionais. As notícias não são animadoras para Portugal, uma vez que também nestes indicadores o país aparece acima da média europeia.

O relatório cruza dados qualitativos da Eurydice (a rede de informação sobre os sistemas educativos europeus) com dados quantitativos obtidos pelo TALIS (Teaching and Learning International Survey, ou Inquérito Internacional de Ensino e Aprendizagem), da OCDE. Deste último retira-se que 24% dos europeus consideram que o trabalho diário afeta a respetiva saúde mental, ao passo que 22% queixam-se de repercussões físicas.

Em Portugal, esses efeitos negativos revelam-se em mais de metade dos professores. A saúde mental aparece como preocupação também nos casos de Bélgica, Bulgária, Dinamarca, França, Letónia e Reino Unido.

Trabalho extra-aulas é uma das razões mais apontadas para o stress e desgaste dos professores

Trabalho extra-aulas é uma das razões mais apontadas para o stress e desgaste dos professores

mehdi fedouach

De onde vem a angústia?

Ainda que não se possa extrair uma conclusão unívoca sobre a origem do desgaste dos professores neste nível de ensino, o relatório traz algumas pistas para o caso português, e não só. Tanto do lado onde os resultados são piores, como do lado oposto.

Os professores que revelam níveis de desgaste mais baixos são também aqueles que sentem que a atmosfera na escola é “colaborativa”, mas que essa cooperação não castra a “autonomia” de cada um. Por outro lado, é curioso perceber que os grandes fatores de desgaste dos professores com mais queixas não estão ligados diretamente ao centro do seu trabalho. Ou seja, não é nas aulas que os professores sentem mais stress.

Trabalho administrativo, responsabilidade pelo sucesso dos alunos e exigências vindas de superiores são três das quatro razões mais apontadas. A outra é o excesso de avaliações feitas aos alunos. E a última desse top 5 é “manter a disciplina na sala de aula”.

Olhando em concreto para Portugal, o trabalho administrativo aparece como um problema para mais de dois terços dos professores, mais ou menos a mesma proporção dos que se queixam da dificuldade de se manterem atualizados sobre as mudanças de regras e requisitos impostas pelos superiores, nomeadamente pelo Ministério da Educação.

Covid destapa realidade antiga: classe envelhecida

O relatório centra ainda especial atenção nas condições de trabalho dos professores do 3.º ciclo, concluindo que os contratos a termo são uma realidade comum a toda a Europa, com particular incidência nos mais jovens, os profissionais abaixo dos 35 anos. Nesses casos, um em cada três professores tem um contrato com termo certo, e em alguns países o número sobe para mais de dois terços — é neste último grupo que está Portugal.

Mesmo onde essa proporção costuma descer, que é nas faixas etárias mais elevadas, Portugal aparece colocado nos piores exemplos: 41% dos professores entre os 35 e os 49 anos encontram-se nessa situação de indefinição laboral. Espanha (39%) e Itália (32%) são os outros exemplos negativos destacados no relatório.

Mais de metade dos países europeus aponta o envelhecimento dos professores como um “desafio”

Mais de metade dos países europeus aponta o envelhecimento dos professores como um “desafio”

dmitry feoktistov

É difícil pensar em condições de trabalho sem pensar em salários. E aí “há uma insatisfação generalizada” entre os professores europeus, só atenuada por aqueles que têm um rendimento anual superior ao PIB per capita do respetivo país. Curiosamente, Portugal aparece também aqui como um caso de estudo.

À semelhança de França, Itália, Roménia e Eslovénia, os professores portugueses até têm uma diferença positiva entre salário e PIB per capita. Porém, mostram-se insatisfeitos com os rendimentos (nove em cada dez, face aos 70% de satisfação em países como a Bélgica ou a Áustria), facto que o relatório tenta explicar através de dois motivos: a lenta progressão na carreira e o impacto da crise económica que se seguiu à falência do banco de investimento Lehman Brothers, em setembro de 2008.

“Professores na Europa - Carreiras, Desenvolvimento e Bem-estar” refere o envelhecimento da classe como “um desafio” para os sistemas educativos da maior parte dos países europeus, Portugal incluído, uma vez que os dados mais recentes mostram que 40% dos professores do 3.º ciclo do ensino básico têm mais de 50 anos, e apenas 20% estão abaixo dos 35. Se a situação já não é a ideal, lembra o relatório, a pandemia de covid-19 veio adicionar uma nova camada de complexidade à vida nas escolas.