Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Estudo recomenda vacinação prioritária de pessoas com doença mental grave. “A seguir à idade, é dos principais fatores de risco” na covid-19

MIGUEL MEDINA/GETTY IMAGES

Hipótese de dar prioridade a doentes mentais graves já foi apresentada à Direção-Geral da Saúde

24 Fevereiro 2021 23:31

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

Uma parte das pessoas com doença mental grave foi incluída nos grupos prioritários para a vacinação contra a covid-19 mas outra parte, mais numerosa, que não vive em instituições e outras estruturas residenciais, não. Assim aconteceu em vários países europeus e Portugal é um deles, segundo um artigo publicado recentemente na revista “The Lancet Psychiatry”, cujos autores analisaram os planos de vacinação de 20 países. O artigo chama a atenção para o risco acrescido que correm as pessoas com doença mental grave em relação ao vírus da covid-19: não só têm maior risco de ser infetadas como de morrerem devido à infeção. Isto deve-se a vários fatores, uns mais conhecidos e habitualmente destacados do que outros.

“Além das questões socioeconómicas e comportamentais, que têm que ver, por exemplo, com a maior dificuldade em cumprir as normas de etiqueta respiratória, e além das outras doenças que, muitas vezes, estão associadas à doença mental grave, vários estudos mostram que a doença mental grave, em si mesma, constitui um fator de risco”, diz ao Expresso Miguel Bajouco, médico psiquiatra do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, que contribuiu para o artigo recolhendo informação em Portugal. A “seguir à idade”, continua Miguel Bajouco, a doença mental grave “é dos principais fatores de risco para a hospitalização e a mortalidade na infeção pelo vírus da covid-19”. Segundo alguns estudos, entre eles um estudo publicado em janeiro deste ano na revista científica “Jama Psychiatry”, as pessoas com doença mental grave têm uma probabilidade até duas ou três vezes maior de morrer se contraírem o vírus do que a população em geral; a probabilidade de serem infetadas é 65% maior, alertou, por sua vez, a autora principal do estudo da investigação recém-publicada, Livia De Picker, do Hospital Psiquiátrico Universitário Duffel, na Bélgica.

Porque é que isto acontece? Miguel Bajouco explica que “as pessoas com doença mental grave têm disfunção do sistema imunitário e isso pode comprometer a resposta a infeção pelo vírus e levar a resultados mais negativos”. Mas há outra hipótese, que é “a própria infeção pelo vírus causar sintomas psiquiátricos”, os quais, por sua vez, e pela razão acima descrita, “constituem um fator de risco para internamento e mortalidade”. “Estas são as hipóteses que têm sido avançadas. Não se conhece a razão exata e por isso é necessária mais investigação, mas todos os estudos epidemiológicos apontam para que seja um fator de risco para a hospitalização e mortalidade.”

E um fator de risco, sublinha, com mais peso do que alguns dos que foram usados para definir critérios e estabelecer prioridades para a vacinação. “Comparativamente a outros grupos prioritários, como pessoas com insuficiência cardíaca e doença renal crónica, o risco de morte associado à covid-19 é igual ou até maior”, diz o psiquiatra, apoiando-se no estudo já citado publicado na “Jama Psychiatry”, segundo o qual a esquizofrenia, por exemplo, “é o segundo fator de risco mais significativo para a mortalidade pelo vírus”, à frente de outras doenças tidas como prioritárias para a vacinação.

Há ainda outro estudo, realizado por cientistas dinamarqueses e publicado em 2020 no “International Journal of Epidemiology”, que aponta para conclusões semelhantes, diz. “A doença psiquiátrica aparece aí equiparada à doença renal e hepática, insuficiência cardíaca e transplante de órgãos. Comparando com algumas dessas doenças, acarreta aliás mais riscos.”

Apresentados os estudos, o comentário: “É possível que, na altura em que foram elaborados os critérios de vacinação, não houvesse prova suficiente a este respeito, mas neste momento há, portanto faz sentido que estas pessoas sejam consideradas prioritárias já nesta primeira fase de vacinação”, diz Miguel Bajouco, para quem tudo isto se resume a “colocar as pessoas com doença mental grave no mesmo patamar de acesso aos cuidados de saúde do que o resto da população”. Outros países estão a fazê-lo, diz, remetendo para a investigação para a qual contribuiu e que foi iniciada por um grupo de trabalho do European College of Neuropsychopharmacology, uma sociedade independente com sede na Holanda, em colaboração com várias instituições de saúde e de investigação que se dedicam a esta área na Europa.

“Países como a Dinamarca, a Holanda e o Reino Unido incluíram estas pessoas nos seus planos de vacinação desde o início. A Alemanha fê-lo mais tarde, depois de uma revisão da prova disponível.” Há outros países que entretanto se juntaram ao grupo, acrescenta, já “depois da publicação do estudo”. “Sabemos que também a Irlanda passou a incluir as pessoas com doença mental grave e que em França os planos estão a ser revistos. Esperamos que Portugal siga o exemplo.” Em termos práticos, ao nível, por exemplo, da identificação destas pessoas, não vê obstáculos, sendo certo que o processo teria de “envolver mais do que os centros de saúde”. “A colaboração dos serviços de saúde mental seria importante. Até porque acompanham a maior parte destas pessoas. Levaria algum tempo, é certo, mas não é impossível de fazer.”

Hipótese de priorizar doentes mentais graves já foi apresentada à DGS

Miguel Xavier, diretor do Programa Nacional de Saúde Mental (PNSM), concorda com a inclusão das pessoas com doença mental grave nos grupos prioritários para a vacinação — tanto é que já abordou esse assunto junto da Direção-Geral da Saúde, revela ao Expresso. “É uma questão que se vai colocar na segunda fase da vacinação. Já se falou sobre o assunto mas ainda é preciso discuti-lo.” Ainda assim, não será razoável esperar que sejam incluídas todas estas pessoas (cerca de 130 mil no total, segundo os seus números), ressalva. “Há doentes em que se justifica a vacinação porque têm fatores de risco acrescidos, como doença cardiovascular, síndrome metabólica, entre outros. Nem todos os doentes, porém, têm esses fatores de risco.” Por outro lado, diz, “há indivíduos com outras patologias que também vão querer ser incluídos, logo é necessário avaliar bem todas as situações”. Prevista para abril, a segunda fase do plano de vacinação vai abranger pessoas entre os 65 e os 79 anos e entre os 50 e os 64 anos com patologias específicas. “O que o Programa Nacional de Saúde Mental vai fazer é verificar se há a possibilidade de incluir os doentes mentais graves com fatores de risco na segunda vaga de vacinação enquanto grupo prioritário”, resume.

Quanto à vacinação das pessoas que se encontram institucionalizadas, seja em instituições públicas, seja nas do sector convencionado (IPSS, misericórdias e ordens religiosas), Miguel Xavier adianta que foram vacinadas com a primeira dose, até esta quarta-feira, 2.509, de "um total de cerca de três mil, contando com Açores e Madeira”. “É importante referir que esse processo, que inclui os residentes mas também os colaboradores da linha da frente, está quase terminado, se é que não está mesmo terminado. À exceção, claro, das instituições em que houve surtos recentemente e não foi possível vacinar”, refere o diretor do PNSM, pondo a tónica nestes doentes. “São os mais vulneráveis, sejam porque são, na sua maioria, idosos, seja por terem outras doenças associadas ou viverem em residências que funcionam, no fundo, como lares, com elevado risco de contaminação pelo vírus.”