Sociedade

Açores recebe duas propostas finais para a construção do porto espacial da ilha Santa Maria

20 janeiro 2021 18:52

wolfgang kaehler/getty images

Consórcios Rocket Factory Augsburg/Edisoft e ILEX Space/Optimal concorrem à construção, operação e exploração da base que deverá lançar pequenos satélites a partir de 2023

20 janeiro 2021 18:52

O Governo Regional dos Açores acaba de receber duas propostas para a construção, operação e exploração da base espacial da ilha de Santa Maria. As propostas correspondem à terceira e última fase do concurso público internacional lançado para o efeito, e foram apresentadas pelos consórcios Rocket Factory Augsburg/Edisoft e ILEX Space/Optimal Structural Solutions.

A Rocket Factory Augsburg AG é uma empresa espacial alemã (Grupo OHB), a Edisoft é portuguesa e pertence ao grupo aeroespacial francês Thales, e a ILEX Space e a Optimal são também portuguesas.

“Ao júri do procedimento cabe agora a análise das propostas que deverão indicar, cada uma, mais de 200 itens obrigatórios para a sua admissão”, explica um comunicado da Secretaria Regional da Cultura, Ciência e Transição Digital do Governo dos Açores, acrescentando que “do caderno de encargos fazem parte, entre outros, a apresentação de um plano de exploração, bem como um plano de gestão de incidências, a identificação dos fatores de risco acompanhado das medidas de mitigação e respetivos expedientes de suporte”.

Os concorrentes devem ainda apresentar “os meios de promoção de um cluster espacial industrial e científico, que deverá dinamizar a indústria, a investigação e o desenvolvimento regional”. O contrato de concessão a estabelecer deverá permitir a operação, administração e manutenção do porto espacial, que por sua vez integrará serviços de telecomunicações, monitorização, telecomando e telemetria.

Primeiros lançamentos de satélites em 2023

Susete Amaro, secretária regional da Cultura, Ciência e Transição Digital do Governo Regional dos Açores, revela ao Expresso que “o júri do concurso deverá fazer a análise das duas propostas até ao final de janeiro, embora não haja um prazo definido para esse efeito, apresentando depois um relatório preliminar”. A secretária regional vê a entrega das duas propostas “com muita satisfação, porque o caderno de encargos do concurso era extremamente exigente”, sendo ainda necessários “12 meses para a apresentação do Estudo de Impacto Ambiental e 24 meses para o início das atividades espaciais em Santa Maria”, o que aponta para os primeiros lançamentos de pequenos satélites em 2023. Susete Amaro sublinha que o projeto “visa permitir o acesso ao Espaço a partir dos Açores, fomentando novos mercados e uma nova geração de serviços de lançamento de pequenos lançadores” (foguetões).

O concurso integra-se na Estratégia Portugal Espaço 2030, que inclui o Programa de Lançamento Internacional de Satélites dos Açores (Azores ISLP), baseado num porto espacial vertical aberto, liderado pela indústria, para mini e micro lançadores, que permita um acesso sustentável e rentável ao Espaço, com o menor impacto ambiental, para cargas úteis até 500kg. E de forma a complementar as instalações da Agência Espacial Europeia existentes na Guiana Francesa para foguetões de médio e grande porte.

A estratégia nacional pretende “tornar a ilha de Santa Maria num importante ecossistema de inovação espacial na Europa, através da democratização do Espaço”, isto é, da integração dos dados e tecnologia espacial na sociedade e na economia de uma forma sustentável em termos económicos e ambientais.

Apostar no mercado comercial

Bruno Carvalho, fundador e diretor da ILEX Space, admite ao Expresso que “o concurso do porto espacial de Santa Maria é complexo” e explica que “depois da seleção da proposta final pelo júri, haverá ainda um processo de negociação antes da assinatura do contrato de concessão”. As atividades da empresa que dirige “estão viradas para o mercado comercial do Espaço e não para o mercado institucional (público)”. Por isso, “fizemos uma abordagem mais realista e montámos o plano de negócios para Santa Maria à volta do modelo comercial”.

A diretora da Área de Defesa e do Espaço da Edisoft, Teresa Cardoso, considera por sua vez que o porto espacial de Santa Maria “é um projeto muito ambicioso para um país como Portugal, porque pretende posicioná-lo a nível mundial no mercado do ‘New Space’ (pequenos lançadores e satélites), onde vão surgir cada vez mais novos atores e empresas”, em especial PME. “Mas é muito bom Portugal entrar neste novo clube na linha da frente, ou seja, num mercado que ainda está por abrir”. Com efeito, há hoje em todo o Mundo uma série de projetos de portos espaciais como o de Santa Maria, mas que ainda não foram concretizados. A Edisoft já tem nesta ilha uma série de infraestruturas ligadas ao Espaço no chamado Teleporto de Santa Maria.