Sociedade

Racismo. PSP apresenta queixa-crime contra o jornal “Público” por causa de cartoon

14 agosto 2020 16:03

Em causa está um desenho publicado esta sexta-feira que satiriza a manifestação racista do passado sábado em frente à sede da SOS Racismo. No desenho são feitas referências a algumas figuras nacionais, entre as quais um elemento fardado à PSP. O diretor do “Inimigo Público” lamenta que numa semana como esta “o grande ato público da PSP seja anunciar que vai processar um cartoon”. E o ilustrador diz que “criminoso é acharem que isto é um crime”

14 agosto 2020 16:03

A PSP vai apresentar uma queixa-crime ao Ministério Público (MP) por causa de um cartoon publicado esta sexta-feira no jornal “Público”. Da autoria do ilustrador Nuno Saraiva, o cartoon faz parte do suplemento humorístico do diário, o “Inimigo Público”.

Nele aparece uma fila de personagens mascaradas, empunhando uma tocha, numa referência à manifestação racista do passado sábado em frente à sede da SOS Racismo. As oito personagens aludem a outras tantas figuras da sociedade portuguesa, como o apresentador Manuel Luís Goucha, à frente. Mais atrás, uma delas aparece fardada com um uniforme policial.

Além da edição impressa, onde fez capa do suplemento “Inimigo Público”, o cartoon foi publicado nas redes sociais do jornal.

A PSP reagiu ao início da tarde com uma nota em que diz que os desenhos “ofendem a credibilidade, o prestígio e a confiança devidos à instituição, consubstanciando a prática de crime”. Para a PSP, o cartoon associa “de forma explícita” a polícia “a um qualquer movimento político-ideológico, afetando publicamente a isenção e apartidarismo que caracterizam a instituição”.

Lamentando “a leviandade com que o jornal e o cartoon em questão feriram a boa imagem da instituição e dos polícias”, a PSP promete participar “formalmente” o caso ao MP e exercer “o direito de queixa pelo Diretor Nacional”.

Na manifestação ocorrida no sábado, os nacionalistas disseram que estavam a homenagear “polícias mortos em serviço”.

“Quando vão atrás de cartoons, algo está errado”

O diretor do suplemento satírico, Luís Pedro Nunes, estranha que “numa das semanas mais intensas com manifestações de racismo, ameaças e tudo, o grande ato público da Direção Nacional da PSP seja anunciar que vai processar um cartoon, que ainda por cima não visa particularmente a instituição, antes faz uma crítica à sociedade portuguesa”. “Quando vão atrás de cartoons, algo está errado, mas 2020 é um ano de grandes perplexidades”, diz ao Expresso, acrescentando que “isto começou hoje de manhã com a exigência do Movimento Zero para a Direção Nacional fazer alguma coisa”.

“Acho um bocadinho estranho que a Direção Nacional da PSP tenha necessitado de fazer isto. Há aqui um certo desejo de dar o exemplo, e acho curioso que tenha sido um cartoon, que não tenham encontrado nada mais interessante. Estamos a viver uma realidade paralela”, acrescenta Luís Pedro Nunes.

O diretor do “Inimigo Público” esclarece que participou com o ilustrador na conceção da ideia. “Aparentemente a sátira está morta ou a morrer. Nunca na minha vida pensei ter de fazer isto, mas vou explicar o que aquele cartoon quer dizer porque pelos vistos, por incapacidade ou deliberadamente, não o querem compreender. Através da imagética de um acontecimento da última semana [a manifestação à frente da sede da SOS Racismo], fomos buscar diversos tipos de pessoas que nos últimos tempos têm sido acusadas de terem laivos racistas. Há vários tipos, incluindo um polícia. Todos eles se escondem atrás da máscara de André Ventura”, esclarece. Fazer uma leitura como a da PSP é ser tão literal quanto a sátira nunca é”, conclui.

“Criminoso é acharem que isto é um crime”, diz ilustrador

Em declarações à agência Lusa, Nuno Saraiva disse que “criminoso é acharem que isto é um crime, que um criativo, um jornalista, um ‘opinion maker’, um cartoonista não pode ter direito à sua liberdade de expressão”. O cartoon em questão é, segundo o seu autor, “bastante pacífico”, pelo que julga “absolutamente exagerado e sem sentido para uma queixa-crime”.

Perante esta possibilidade, o ilustrador sublinha não estar preocupado consigo, mas com o caminho que o país está a trilhar”. “Parece que estamos a dar uma reviravolta para mais de 40 anos atrás, isso é que me preocupa. E o silêncio institucional preocupa-me também, afirmou à Lusa, considerando que nos últimos tempos sente que está tudo muito pesado e esquisito, uma situação que, confessa, o assusta.