Sociedade

Antibióticos: algures entre a cura e a morte

2 agosto 2020 21:37

Tiago Soares

Tiago Soares

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Jornalista

fotografias getty images

Os antibióticos são uma das bases da medicina moderna: um simples comprimido é hoje capaz de aniquilar infeções que há poucas décadas eram uma sentença de morte. Mas quanto mais são usados, mais as bactérias resistem: estes medicamentos estão a deixar de fazer efeito, e isso é um problema de saúde pública global

2 agosto 2020 21:37

Tiago Soares

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Passaram 28 anos e Helena (nome fictício) ainda se lembra da primeira vez que a agulha lhe perfurou o corpo. O seu organismo precisava de ser limpo: as infeções tinham por fim vencido, anos e anos depois da primeira infeção urinária na adolescência. A diálise “puxava pelo coração” mas deu-lhe tempo: dois anos com menos infeções, menos dores, um rim menos cansado. Mas as bactérias adaptaram-se ao organismo renovado e voltaram a atacar com persistência. Já não havia diálise possível que adiasse o ato médico seguinte.

Esta mulher de 68 anos é natural de Torres Novas e a sua vida foi salva pelos Açores: “O meu sangue é B negativo, que é dos mais raros, mas os médicos disseram-me que era muito comum numa ilha dos Açores. Felizmente apareceu um rim de lá.” Fez o transplante no Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa: o rim está bem, a uretra nunca recuperou, e por isso desde então já esteve um punhado de vezes internada no hospital onde se salvou. “Bebo muito água, mas às vezes lá aparece uma infeção urinária. Há certos micróbios que os antibióticos da farmácia não matam, e por isso tenho de ir para lá e tomar os do hospital, que são mais potentes. É pela veia, durante uns dez dias”, explica Helena. Tem consultas de três em três meses, e a medicação anda a par do calendário: tem a certeza que já tomou “muito mais do que dez” antibióticos ao longo da vida para combater o problema que os médicos acreditam ter nascido com ela.