Sociedade

Greta Thunberg é a vencedora do Prémio Gulbenkian para a Humanidade 

20 julho 2020 11:12

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

rafael marchante/reuters

A jovem activista sueca foi esta segunda-feira galardoada com o prémio no valor de um milhão de euros pela forma original como conseguiu chamar a atenção para a urgência climática. Agora vai distribuir esse dinheiro por organizações que lutam para enfrentar as alterações climáticas e a crise ecológica no Sul Global

20 julho 2020 11:12

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

O primeiro Prémio Gulbenkian para a Humanidade foi esta segunda-feira atribuído à ativista ambiental Greta Thunberg. A jovem sueca de 17 anos disse ao Expresso estar “muito, muito grata” pela distinção e que “a Fundação Thunberg vai doar o milhão de euros do prémio a várias organizações do Sul Global, sobretudo para ajudá-las a enfrentar a crise ecológica e climática”. O assunto será desenvolvido em entrevista ao Expresso, no próximo sábado.

A Gulbenkian divulgou um vídeo de agradecimento, que pode ver em baixo, em que a ambientalista se declara também muito agradecida.

Duas das primeiras organizações que vão receber uma fatia do prémio (cerca de 100 mil euros) são a SOS Amazónia, que combate a Covid 19 na Amazónia e a Friday for Future Brasil. A terceira a receber mais uma fatia de 100 mil euros será a Stop Ecocide Foundation, "que tem trabalhado para tornar o ecocídio um crime internacional”, anunciou a ativista.

Nomeada por três individualidades internacionais, Greta Thunberg passou por um crivo apertado. De entre 136 nomeados (79 organizações e 57 personalidades de 46 países), começou por ser selecionada por um comité presidido pelo biogeógrafo Miguel Bastos Araújo para um grupo de 10 semifinalistas. Depois passou pela seleção do Grande Júri do Prémio, presidido por Jorge Sampaio, que escolheu três nomes finalistas, destacando Greta com "amplo consenso".

O antigo Presidente da República sublinhou “a forma como Greta Thunberg conseguiu mobilizar as gerações mais novas para a causa do clima e a sua luta tenaz por mudar um status quo que teima em persistir”. E classificou-a como “uma das figuras mais marcantes da atualidade”. Com este prémio — que distingue pessoas e/ou organizações que de forma original e inovadora contribuem para a mitigação e adaptação às alterações climáticas — esperam "dar um voto de estímulo", para que a jovem ativista possa “consolidar o seu papel de pedagogia e de liderança no combate contra as alterações climáticas como condição do desenvolvimento sustentável”, disse Sampaio.

A escolha final coube à direção da Fundação Calouste Gulbenkian, que, segundo a sua presidente, Isabel Mota, assim “sublinha o seu compromisso para com a urgência da ação climática, contribuindo para uma sociedade mais resiliente e preparada para as alterações globais, protegendo em especial os mais vulneráveis”.

Greta Thunberg deverá receber o prémio em mãos em data ainda a agendar e que terá em conta o calendário escolar da jovem ativista. Se a pandemia de Covid-19 permitir," poderá ser entregue até Novembro ou então no início do próximo ano", indicou Isabel Mota em conferência de imprensa. A presidente da FCG reiterou a satisfação por atribuir o prémio a uma jovem que é uma agente de mudança".

O júri do Prémio Gulbenkian para a Humanidade destacou “o lado carismático e inspirador de Thunberg e a força da sua mensagem singular e incómoda, e a capacidade de marcar a diferença no combate às alterações climáticas”. Entre as personalidades que o compõem constam Hans Joachim Schellnhuber (fundador e diretor emérito do Instituto Potsdam de Pesquisas sobre o Impacto Climático), Hindou Oumarou Ibrahim (ativista ambiental, Presidente da Associação de Mulheres e Povos Indígenas do Chade), Johan Rockström (diretor do Instituto Potsdam de Pesquisas sobre o Impacto Climático e Professor de Ciências do Sistema Terrestre na Universidade de Potsdam), Katherine Richardson (coordenadora do Centro de Ciências da Sustentabilidade da Universidade de Copenhaga), Miguel Arias Cañete (antigo Comissário Europeu da Energia e Ação Climática), Miguel Bastos Araújo (geógrafo, Prémio Pessoa 2018), Runa Khan (fundadora e diretora executiva da ONG Friendship e Presidente da Global Dignity Bangladesh) e Sunita Narain (escritora e ativista ambiental, diretora do Centro de Ciência e Ambiente de Nova Deli).

"Há o antes e o depois de Greta", sublinhou Miguel Bastos Araújo, na conferência de imprensa, lembrando como a jovem ativista conseguiu "mobilizar a juventude mundial, milhões em todo o mundo usando as tecnologias do século XXI". O investigador e membro do júri destacou igualmente "o mérito" de Greta por ser "a personalidade mais jovem da história da Humanidade a destacar-se pelo impacto das suas ações e das suas palavras a nível mundial".

Já Carlos Moedas, administrador da FCG, manifestou o seu "orgulho na escolha" de Greta e lembrou que ela é uma das subscritoras do manifesto entregue aos líderes europeus em defesa da democracia. Segundo o ex-comissário europeu não restam muitas dúvidas de que "30% do pacote do Fundo de recuperação terá de ser investido na luta às alterações climáticas".

A capacidade de influência mundial e o modo direto e carismático de comunicar fizeram com que Greta Thunberg fosse nomeada já duas vezes para o Prémio Nobel da Paz (2019 e 2020) e considerada pela Time Magazine uma das 100 pessoas mais influentes do mundo, e uma das 100 Mulheres mais poderosas de 2019 na lista da Forbes. Também foi eleita a personalidade internacional do ano passado pelo Expresso.

* Artigo atualizado às 13h