Sociedade

Covid-19. Operação Luz Verde: foi bom mas acabou?

19 junho 2020 23:50

david clifford

Em pouco mais de dois meses, a Operação Luz Verde garantiu quase 15 mil dispensas de medicamentos hospitalares, evitando que os doentes tivessem de se deslocar às unidades onde são seguidos. Serviço foi pensado como resposta ao período de emergência por causa da covid-19, mas Associação Nacional de Farmácias diz que continua a funcionar

19 junho 2020 23:50

Por mais distante que este possa ficar da sua área de residência, ter de ir ao hospital levantar medicação é uma rotina habitual para determinados doentes, cujo acompanhamento clínico requer a toma de fármacos específicos e de forma continuada. A Operação Luz Verde foi a solução criada em tempo de pandemia, para possibilitar a entrega pelas farmácias comunitárias de medicação dispensada nos hospitais. Através dela, foram asseguradas quase 15 mil dispensas (exatamente 14.743, entre 24 de março e 31 de maio), num balanço feito pela Associação Nacional de Farmácias (ANF), uma das entidades envolvidas. Acrescenta Humberto Martins, diretor da Área Profissional da ANF: foram evitados “1,4 mil milhões de quilómetros, anteriormente percorridos pelos doentes”.

Um total de 33 hospitais aderiram a esta Operação, com o serviço a funcionar de forma gratuita. Atualmente, apesar do fim do estado de emergência, a ANF diz que os pacientes continuam a poder aceder à medicação de que necessitam sem ter de se deslocar aos hospitais - 2.527 dispensas a pedido dos hospitais, desde 31 de maio. A mecânica é a mesma: quem assim entender, pode pedir a entrega dos seus medicamentos ao seu hospital, farmácia ou através da linha 1400 (chamada gratuita), sendo a dispensa da medicação articulada pela Linha de Apoio ao Farmacêutico (LAF) e efetuada pela farmácia escolhida pelos utentes.

Essa era a expetativa de uma utente do Instituto Português de Oncologia (IPO), em Lisboa, que esta semana tentou recorrer ao serviço para pedir a entrega dos medicamentos que tem de tomar diariamente. No seu caso, não foi possível, contou ao Expresso. Após uma troca de emails e também uma tentativa de encaminhar o pedido através da aplicação recém-lançada “My IPO”, pelo telefone foi-lhe comunicado que teria mesmo de os ir buscar ao Instituto, ainda que o IPO tenha prevista uma modalidade de envio de medicação para a área de proximidade do doente, como, por exemplo, uma farmácia da sua área de residência.

Contactado o IPO de Lisboa, o hospital explicou ter aderido à Operação Luz Verde, ainda que ao abrigo desta solução tenham sido feitos apenas “cerca de 141 envios”, em abril e maio. Segundo António Melo Gouveia, diretor do Serviço Farmacêutico do Instituto, o número “corresponde a 1,7% dos atendimentos”.

“O IPO Lisboa recorreu também ao apoio de outras entidades, como hospitais de proximidade, autarquias e outras metodologias de dispensa simplificada com agendamento”, explicou, acrescentando que , “por outro lado, o IPO Lisboa já possuía desde 2019 um processo de entrega de proximidade através de farmácias comunitárias escolhidas pelos doentes, o qual se expandiu” durante os dois meses com maiores restrições no país, por causa da pandemia.

Ao Expresso, António Melo Gouveia acrescentou que “com a cessação do formato gratuito da Operação Luz Verde a 12 de junho, o IPO Lisboa está a ponderar soluções para os seus doentes que tenham sido abrangidos por este programa e que continuem a necessitar de uma entrega de proximidade”.

“Estas poderão passar pela ampliação do serviço já implementado antes da pandemia, pela simplificação de entregas programadas a cuidadores identificados pelos doentes, ou por articulação com outras entidades, por exemplo hospitais de proximidade do doente. Uma das hipóteses em análise é a continuidade da articulação com os operadores envolvidos na Operação Luz Verde, no contexto da legislação aplicável, nomeadamente no que diz respeito à contratação pública”, adiantou ainda o diretor do Serviço Farmacêutico do IPO Lisboa.

9 em cada 10 desejam a continuidade do serviço

A ANF sublinha que “as farmácias estão a oferecer o seu serviço a estes doentes”. Com 9 em cada 10 dos doentes que beneficiaram da Operação Luz Verde a manifestarem (através de um inquérito) que o acesso aos medicamentos hospitalares nas farmácias deve ser possível mesmo após o cenário provocado pela covid-19, as farmácias formalizaram junto das unidades hospitalares a sua disponibilidade para manterem o serviço. “De 33 hospitais participantes, apenas o IPO do Porto formalizou que prescindia do apoio na dispensa de medicamentos hospitalares aos seus doentes”, refere Humberto Martins.

Quanto ao alerta antigo do sector, de que “há serviços em risco por falta de comparticipação do Estado”, um comunicado conjunto recente da ANF e da Associação de Farmácias de Portugal (AFP) sublinhava: “Há casos de doentes dos Açores e do Algarve que faziam deslocações regulares a Lisboa”. A nota lembrava também que a primeira experiência em que foi dada aos doentes a liberdade de escolher a sua farmácia começou com doentes com VIH-Sida, há quatro anos, sem que o Estado até agora investisse um “único cêntimo no serviço”.

Há alguma proposta concreta? “Estão a decorrer avaliações envolvendo os 3 maiores hospitais do país, que manifestaram interesse numa maior parceria com as farmácias: Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central, Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra e Centro Hospitalar Universitário de São João, no Porto. Essas avaliações visam determinar as poupanças e o valor acrescentado do acesso a estes medicamentos nas farmácias. A construção de um modelo que alinhe os interesses dos doentes, do SNS, dos hospitais e das farmácias será a base para a sua sustentabilidade futura”, esclareceu Humberto Martins.