Sociedade

OPERAÇÃO MARQUÊS: Há dois cofres no meio da sala

30 novembro 2019 21:23

Rui Gustavo

Rui Gustavo

Jornalista

foto tiago miranda

Além de Maria Adelaide, que no passado se queixou de estar “depenadinha”, também Santos Silva confessou juntar dinheiro num cofre

30 novembro 2019 21:23

Rui Gustavo

Rui Gustavo

Jornalista

Carlos Santos Silva nem queria falar nesta fase de instrução — foram os arguidos Rui Mão de Ferro e Gonçalo Trindade Ferreira que pediram a sua inquirição — mas teve de se sujeitar a três dias de interrogatório cerrado do juiz Ivo Rosa e foi o que se esperava: amigo de Sócrates. Admitiu que, tal como a mãe do companheiro de longa data, guardava uma pequena fortuna (200 mil euros em numerário) num cofre alugado num banco em nome de Trindade Ferreira que era na altura seu advogado. O dinheiro vivo serviria para pagar a facilitadores de negócios no estrangeiro. “É o mundo da construção civil”, justificou Carlos Santos Silva a um provavelmente espantado Ivo Rosa.

Antes dele, no interrogatório de 30 de outubro, José Sócrates já tinha trazido um cofre para a sala de audiências do Tribunal Central de Instrução Criminal quando pediu ao juiz para fazer uma “intervenção de enquadramento geral” em que se referiu aos “meios de fortuna da mãe” que estariam guardados “num cofre” que “ainda hoje” está na casa do ex-primeiro-ministro “com dinheiro e títulos de tesouro”. Por via da morte de vários familiares, Maria Adelaide Monteiro terá, segundo o filho, juntado uma fortuna de cinco milhões de euros que guardava no referido cofre. Era por isso que Sócrates viajava para o estrangeiro com dinheiro vivo que a mãe lhe dava “sempre” que ele pedia, nomeadamente para férias na neve ou na praia.

Sócrates admitiu que gastava mais dinheiro do que ganhava quando saiu do Governo e que era Santos Silva que “por amizade” o ajudava com dinheiro (pelo menos 575 mil euros) para que pudesse manter o nível de vida “de diplomata” a que estava habituado. Mas quando foi ouvido pela primeira vez por um juiz, três dias depois de ter sido detido, em novembro de 2014, Santos Silva justificou o empréstimo a Sócrates com a necessidade que este tinha em sustentar a mãe, o que contraria a versão da mãe rica agora apresentada pelo ex-governante. Santos Silva viu-se agora obrigado a corrigir a mão e a dizer que afinal a mãe de Sócrates sempre teve posses e chegou mesmo a financiar as campanhas eleitorais do então jovem turco socialista que tentava fugir da Covilhã para um lugar ao sol na capital.

Maria Adelaide Monteiro, que não foi acusada no processo-crime que está agora na fase de instrução, chegou a estar sob escuta e em março de 2014, quando o processo ainda não tinha rebentado, foi apanhada pelos investigadores num conversa em código com o filho José. “Como não podia utilizar qualquer expressão ou termo que referenciasse pedido de dinheiro, utilizava sempre conversas em sentido figurado”, explica o Ministério Público.

Assim, a mãe do ex-primeiro-ministro ter-se-á queixado de que estava “depenadinha”. E como Sócrates não terá percebido de imediato o teor da expressão, Adelaide Monteiro precisou que estava “sem penas”. E como não terá recebido o dinheiro de imediato, voltou a ligar ao filho no dia seguinte, para o “lembrar daquilo”.