“Os oceanos são as primeiras vítimas das alterações climáticas” e, com base neste pressuposto, o presidente da Fundação Oceano Azul, Tiago Pitta e Cunha, aplaude o enfoque dado pelo relatório especial do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) a estes ecossistemas que representam cerca de 70% da superfície do planeta.
O relatório especial sobre Oceanos e a Criosfera, esta quarta-feira divulgado pelo painel científico na ONU no Museu Oceanográfico do Mónaco, explica como os oceanos funcionam como esponja do excesso de CO2 e do calor emitidos e como estes estão a aquecer e a acidificar os mares, a cortar-lhes oxigénio e a fazer subir o nível do mar, afetando os ecossistemas naturais,a biodiversidade e as comunidades humanas em vários pontos do planeta.
Com este relatório, os oceanos passam a ter um novo enfoque debaixo dos holofotes em torno da crise climática. E os cientistas apelam à urgência da ação para travar a subida das temperaturas médias globais a não mais de 1,5ºC para tentar conter os estragos, alguns dos quais já irreversíveis.
“O IPCC já nos tinha avisado que temos uma janela de oportunidade de 10 anos para impedir que as temperaturas subam mais de 1,5ºC”, frisa Tiago Pitta e Cunha, sublinhando “a urgência da ação”.
Entre as medidas a seguir para permitir atenuar os impactos da crise climática e permitir que os oceanos cumpram a sua função de "estabilizadores das alterações climáticas", o Presidente da Fundação Oceano Azul sublinha, na linha do relatório do IPCC, “a necessidade de manter saudáveis vários ecossistemas dos oceanos, como as pradarias marinhas ou os sapais”, que permitem absorver grandes quantidades de gases de efeito de estufa.
Questionado sobre o conflito de interesses entre a preservação desses ecossistemas e os interesses económicos — de que as dragagens previstas para o Sado e o projeto do aeroporto do Montijo são exemplos em Portugal —, Pitta e Cunha diz que “o capital natural deve entrar para as contas e a decisão final deve avaliar o custo-benefício das opções. E admite: “Ainda não conseguimos interiorizar a importância do capital natural”.
Portugal é um dos países mais vulneráveis à subida do nível médio do mar e entre 2000 e 2013 o marégrafo de Cascais registou uma duplicação dos valores desta subida face ao período homólogo anterior. Segundo a aplicação “Cartografia de risco costeiro associado à subida do nível do mar como consequência das alterações climáticas" — elaborada por uma equipa da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), coordenada por Carlos Antunes —, 146 mil pessoas que vivem na faixa de risco em 11 concelhos e distritos de Portugal continental podem ficar numa situação vulnerável já em 2050, perante uma subida média de um metro no nível do mar (ver www.snmportugal.pt). E nas projeções para 2100, o número sobe para 225 mil, tendo em conta a vulnerabilidade física costeira, cruzada com um cenário extremo de maré cheia, coincidente com um período de marés vivas equinociais e uma intempérie violenta.
A subida do nível do mar não só afeta as pessoas e as infraestruturas como, acrescenta o presidente da Fundação Oceano Azul, “põe em risco os nossos solos e a agricultura e acaba com as nossas praias, com consequências para o turismo e para a economia”.