A marcha tem um propósito claro, que é protestar contra as alterações climáticas e, em concreto, contra os furos de gás e, mais em concreto ainda, contra a empresa australiana que pretende abrir um furo de prospeção e exploração de gás fóssil na Bajouca, freguesia do concelho de Leiria onde vivem cerca de dois mil habitantes, mas incluirá uma “componente” que não se pretende “esconder” e que João Castro, que faz parte de duas associações com preocupações na área do ambiente, anuncia e resume assim: “Iremos ocupar os terrenos que a empresa já adquiriu para fazer a prospeção”. A ação, disse numa entrevista ao Expresso, “tem como único alvo a empresa, não a polícia, ou a Câmara, ou o Estado”. “E uma finalidade muito clara que é enviar a mensagem de que no dia em que as máquinas vierem para o local, nós iremos estar ao lado da população a impedir que comecem a trabalhar”, assegurou.
A manifestação e a ação, marcadas para o próximo sábado a partir das 9h (o ponto de encontro será na sede da Associação Bajouquense para o Desenvolvimento, ABAD) estão a ser preparadas há meses e os últimos detalhes vão ser afinados no dia anterior, sexta-feira, durante o acampamento, Camp-in-Gás, que o Climáximo, coletivo de ativistas pela justiça climática a que João Costa pertence, está a organizar em conjunto com outras seis associações: a Linha Vermelha, Movimento do Centro contra a Exploração do Gás, Peniche Livre de Petróleo, Climate Save Movement, Academia Cidadã e a já referida ABAD. Começa já esta quarta-feira e prolonga-se até domingo, 21 de julho, e o programa inclui oficinas, workshops, sessões de yoga e meditação, formações e debates.
Algumas destas atividades vão ser realizadas por membros da comunidade local (também a comida, vegana, será feita com produtos da comunidade de produtores do distrito de Leiria, e houve canecas encomendadas aos oleiros locais), sendo prioridade da organização do acampamento envolver a população da Bajouca, que “está naturalmente preocupada com a possibilidade de se abrir um furo de prospeção de gás ao pé das suas casas”, diz João Costa, especificando que “há casas a 200 e a 500 metros dos terrenos de prospeção”. “Apesar de as pessoas não terem muita informação técnica, sabem que há perigos e que há possibilidade de contaminação, e por isso estão contra esses projetos.”
Além do furo na Bajouca, está previsto outro em Aljubarrota (Alcobaça), feito pela mesma empresa, a Australis Oil & Gas, que, e de acordo com uma investigação do site de jornalismo independente Fumaça, fez um acordo em 2015 com o Governo português e passou a deter, durante oito anos (prorrogáveis por mais dois) os direitos de prospeção, pesquisa, desenvolvimento e produção de petróleo e gás em cerca de 2,510 km2 de subsolo nacional. Ainda segundo o mesmo site, as populações só no ano passado perceberam que havia a intenção de furar as suas terras e, tendo sido apanhadas de surpresa, reagiram com grande descontentamento.
Imagem cedida pela organização.
“Vamos dar apoio legal, psicológico, o que for preciso”
As dúvidas são, de facto, muitas, e por isso foram convidados dois ativistas internacionais “focados na causa do gás” para esclarecê-las numa sessão a realizar durante o acampamento, adianta João Costa, esclarecendo que as alterações climáticas, num sentido mais lato, também serão abordadas. “Queremos introduzir esse tema e mostrar que os furos na Bajouca ou em Aljubarrota, nas Filipinas ou na África do Sul, têm a mesma gravidade porque a poluição e os gases com efeito de estufa não têm fronteiras.”
Mas o ponto alto, à falta de melhor termo, será mesmo no sábado, com a manifestação e ocupação dos terrenos da empresa australiana. Conhecimento técnico e legal é algo que não se espera que falte: “A sessão de esclarecimentos de sexta-feira será muito importante, até para as pessoas se sentirem confortáveis com o que vão fazer, que é no fundo uma invasão de propriedade privada”. Mas está tudo acautelado, assegura: “Sabemos que não é legal mas temos como nos defender”. Há “vários níveis de envolvimento”, diz ainda, “e cada pessoa escolhe até que ponto quer estar envolvida e quais as consequências disso”. “Vamos dar apoio legal, psicológico, o que for preciso.”
Para quê?
Também é preciso ter em conta, e João Costa faz questão de reforçar isso, que o limite para o aumento da temperatura global estabelecido pelo acordo de Paris de 2015 irá, se não houver uma mudança urgente de políticas, ser ultrapassado, e que as metas definidas ainda estão lá bem longe. “A questão da justiça climática é muito importante para nós, porque como povos ocidentais podemos não sentir as consequências disto, mas há quem vá senti-las, como as nações subdesenvolvidas. E as populações desses países terão de fugir e vão fugir para a Europa e outros continentes e não vão ser bem recebidas e ainda menos acolhidas.”
É um verdadeiro “contrassenso”, afirma João Costa, na medida em que “nós causamos o problema mas depois não aceitamos estas pessoas”. E as reservas de combustíveis fósseis têm aqui um impacto especialmente negativo. “Se extraídas todas as reservas que se conhecem de gás natural, o aquecimento vai ser superior a 2ºC”, acrescenta o porta-voz, criticando a “narrativa que se vende de que o gás, assim como outras substâncias, são combustíveis de transição, e ao mesmo tempo continua-se à procura e a abrir mais e mais buracos”. Para quê?