Cerca de cinco mil estudantes faltaram às aulas esta sexta-feira e juntaram-se em frente à escadaria do Parlamento, em Lisboa, na segunda greve climática estudantil. Mais de duas horas depois de terem arrancado do Marquês de Pombal e caminhado lentamente até São Bento, viram o presidente da Assembleia da República descer a escadaria para dizer a seis dos jovens organizadores do evento que “partilha as suas preocupações”, reconhecendo as alterações climáticas como uma “causa global”.
Ferro Rodrigues manifestou ainda aos jovens “uma preocupação grande” com a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris, lembrando que tem “apelado a uma maior sensibilização” para as alterações climáticas em todos os palcos onde intervém como presidente da Assembleia da República, de acordo com a informação da assessoria de imprensa.
“Governo, escuta, os estudantes estão em luta” e “os putos acordaram” foram frases várias vezes repetidas. “Marcelo, deixa as selfies e trata do ambiente” era uma das que se liam nos cartazes.
Os jovens querem mais ação dos governos e querem que se reconheça um “estado de emergência” em relação ao planeta. É também isso que defende Gruta Thunberg, a jovem sueca de 16 anos que iniciou uma greve às aulas como forma de chamar a atenção para o que é preciso fazer perante as alterações climáticas.
Ao presidente da Assembleia da República, os estudantes pediram um maior envolvimento do Parlamento nesta questão. E enquanto os colegas falavam com Ferro Rodrigues, os restantes gritavam “menos conversa, mais ação, não mudem o clima, mudem o sistema”. À frente da escadaria liam-se outros cartazes: “Se o clima fosse um banco já teria sido salvo”, “o Titanic não afundaria em 2019” ou “até vim de camisa para ver se me levam a sério”.
Esta segunda greve dos estudantes pelo clima estava prevista em 1623 locais diferentes de 119 países do mundo. Em Portugal havia encontros marcados para pelo menos 50 lugares. Alguns deputados, como Paula Santos, do PCP, Heloísa Apolónia, dos Verdes, Pedro Soares, do Bloco de Esquerda, André Silva, do PAN, e ainda Francisco Guerreiro, candidato do PAN às Europeias, e Rui Tavares, candidato do LIVRE, juntaram-se aos jovens, apoiando-os nas suas reivindicações.
O arranque, em Lisboa, aconteceu na rotunda do Marquês de Pombal, às 10h30, onde se viam jovens de várias idades, alguns sozinhos, outros com os pais ou professores, como os 65 alunos da Voz do Operário, com idades entre os 8 e os 11 anos, que cantavam repetidamente o que já tinham aprendido na escola e mostravam os cartazes feitos com materiais reciclados.
Ao longo do caminho até ao Parlamento, os estudantes sentaram-se à frente da sede do Partido Socialista, no Rato, levantando os cartazes. Entre os milhares de jovens estava um grupo de 15 amigos de escolas diferentes em Benfica, com idades entre os 14 e os 15 anos, que se juntaram pela primeira vez à greve por terem conseguido autorização dos pais.
Uma delas, Rebeca, de 14 anos, fez um cartaz onde se lê “queres um planeta, não uma lixeira”. “Desenhei o planeta dentro do caixote porque é isso que temos feito: temos deitado o mundo no lixo”, diz. “Hoje tinha um teste mas a professora apoiou-nos e disse que mudava a data. Em casa também mudei os meus hábitos, como por exemplo não usar palhinhas ou cotonetes de plástico. E na escola todos os dias há uma turma diferente que tem a tarefa de limpar o chão.”
Por isso, combinaram entre si uma ideia. “Trouxemos luvas e sacos. No final da manifestação vamos fazer o caminho inverso para limpar todo o lixo que possa ter ficado. Não podemos estar a manifestar-nos pelo clima e depois deixar o nosso caminho sujo.”
Tem dúvidas, sugestões ou críticas? Envie-me um e-mail: ralbuquerque@expresso.impresa.pt