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Sociedade

Vítima de violência doméstica sobre o juiz Neto Moura: “gostava de entender porque é que ele é tão contra as mulheres”

Conceição, a vítima de violência doméstica do mais recente acórdão de Neto Moura, diz estar agora à mercê do agressor. Veja a reportagem nesta quarta-feira na SIC

A vítima de violência doméstica a cujo agressor o juiz desembargador da Relação do Porto retirou a pulseira eletrónica vive agora uma “vida oculta”. Em entrevista ao Expresso e à SIC, que será transmitida nesta quarta-feira à noite na estação televisiva, a mulher de 49 anos afirma ter ficado em choque quando recebeu a notícia de que o ex-marido ia ficar sem pulseira eletrónica.

“Tenho muito medo. As ameaças continuam. Ele vai aos sítios onde estão pessoas que eu conheço, onde está a minha nora e diz que se me vir me mata. E eu acredito.” Conceição, de 49 anos, recebeu a notícia de que o ex-marido tinha ficado sem a pulseira electrónica “em choque”. Agora, vive em paradeiro incerto e sem ver a família. “É como estar presa a um passado, a um fantasma que não vai embora. Estou à mercê dele.”

E não consegue entender a decisão do juiz desembargador Neto Moura. “Se fosse uma irmã ou uma filha dele?! Gostava de entender porque é que ele é tão contra as mulheres”, diz.

A decisão transformou a sua vida “num tormento”, num medo constante de ser descoberta, num andar constante a olhar para trás. “Continuam as ameaças. Quando está embriagado vai aos cafés, aos sítios onde estão pessoas que eu conheço, onde está a minha nora e diz que me mata. Faz de propósito.”

Agora, só sai à rua disfarçada. Mudou o corte de cabelo e tem apenas o apoio do filho e da nora. Teve de entregar o café que explorava e não consegue arranjar emprego, pois da última vez que esteve empregada o ex-marido descobriu. “Tenho consciência de que a pena não ia durar a vida toda. Mas aqueles três anos [com a pulseira electrónica] dava para ele por a cabeça em ordem, melhorar. E eu ver se me esquecia, se voltava a ter uma vida norma”, conta.

Foram 33 anos de casamento, 33 anos de pancada. A primeira vez que o ex-marido a agrediu, Conceição estava grávida de sete meses. Tinha 14 anos e não percebeu logo que estava a ser vítima de violência doméstica. “Depois vieram as desculpas e uma pessoa também tem medo de sair.”

O medo fê-la continuar na relação, mas também foi o impulso para sair quando em julho de 2017 o ex-marido a atacou com uma catana. “Percebi que ele me ia matar, foi aí que fugi e não voltei mais.” Antes desse dia, já Conceição tinha tentado sair de casa. Por três vezes tentou refugiar-se em casa do filho. Uma dessas ocasiões aconteceu quando os socos do agressor a deixaram com um tímpano furado. Das três vezes acabou por voltar.

“Às vezes, depois da violência, vestia-me, arranjava-me e punha um sorriso no rosto. Escondia porque acabamos por ter vergonha. Era capaz de pôr música e cantar, mas o sorriso era falso. Acabamos por fingir. Até ao dia em que percebemos que temos de ser nós a fazer alguma coisa.”

O processo na justiça acabou por ser uma continuação da violência. “É o reviver de tudo outra vez.” Contou com os testemunhos da nora e do filho mas não com os dos vizinhos que a viram “tanta vez de cara pisada”. As pessoas têm medo de falar, “medo dele” e ela também não as quer obrigar.

Apesar da condenação do ex-marido, Conceição perdeu a confiança na justiça. A pena suspensa e a decisão de Neto Moura fizeram-na perder a fé. “A justiça só liga quando as mulheres aparecem mortas. Eu sei que podia ser mais um nome das vítimas mortais de violência doméstica. E ainda posso ser.”

O caso de Conceição não tem mais hipótese de recurso em tribunal. A única solução seria a de apelar ao Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, processando o Estado que falhou na sua proteção. “Mas eu não quero dinheiro.”

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