Sociedade

Um frio de morte vive dentro de casa

24 fevereiro 2019 17:00

A antiguidade das habitações, a falta de isolamento e o elevado custo da eletricidade congelam a realidade de muitas famílias portuguesas, quando o inverno bate à porta e o frio entra sem ser convidado

24 fevereiro 2019 17:00

jamesbrey

Lar, gélido lar. Há estrelas no céu, mas para mim hoje é fevereiro, está um frio de rachar, parece que a minha casa se uniu para me tramar. Não é exatamente assim a canção de Rui Veloso, quando o cantor versejava sobre a primavera da vida, mas veste melhor a realidade glaciar de muitas famílias portuguesas para as quais — com ou sem animais de estimação — a habitação mais parece uma arca frigorífica de Noé. O cenário treme nos lares nacionais, de acordo com o relatório de atividades do IFRRU (Instrumento Financeiro para a Reabilitação e Revitalização Urbanas), onde as conclusões deixam à vista algum bolor: aproximadamente “um milhão de edifícios necessitam de intervenções, dos quais 80 por cento têm idade superior a 30 anos, representando cerca de um terço do parque habitacional” vetusto e com telhados de vidro. A falta de isolamento provoca calafrios na eficiência térmica e torna-se necessário quebrar o gelo relativamente a um problema residente dentro de portas. “Tenho muita humidade. É só humidade. A respeito da casa é só humidade, muita humidade. Era só pintar isto com uma tinta que não desse para ter mais humidade”, queixava-se dona Laura, com palavras congeladas num dos vídeos mais célebres dos apanhados jornalísticos.

Os dados são transparentes, como o gelo, e evidenciam, com certeza, as frias casas portuguesas, apesar do clima mediterrânico, com uma temperatura média anual que oscila dos 4 graus Celsius no interior montanhoso até 18 graus no sul, na bacia do Guadiana. Um levantamento, efetuado em 2017, pelo Portal da Construção Sustentável, em colaboração com a Quercus, faz transparecer que 18 mil famílias sentem na pele as “condições precárias” de “carências habitacionais”. O mesmo relatório indica que 74 por cento dos inquiridos consideram as residências frias durante os meses álgidos e apenas 1 por cento dos participantes vive numa habitação termicamente confortável. Os aquecedores têm, portanto, paragem quase obrigatória na estação de inverno — quando a taxa de mortalidade devido ao frio acresce 28 por cento —, mas esta solução é travada pelo preço da eletricidade, uma vez que Portugal tem a terceira tarifa mais cara da Europa, apenas superado pela Bélgica e a Dinamarca, países onde os cidadãos possuem um poder de compra muito superior ao verificado em solo nacional.

A fatura pesa na carteira e é preciso improvisar, à portuguesa e com um sangue latinamente frio, na hora de combater um inimigo quase soviético. Apenas 3 por cento duplicam o gasto energético durante o inverno, enquanto 20 por cento optam por mais agasalhos, revela a análise dos resultados do referido grupo de trabalho, coordenado por Aline Guerreiro. “As pessoas optam por vestir mais casacos e colocar mais cobertores nas camas, porque dizem-nos ser completamente incomportável colocar mais aquecedores. Não têm dinheiro”, explica, ao Expresso, a responsável do Portal da Construção Sustentável.

QUANDO O EMPREITEIRO NÃO TEM JUÍZO, O CORPO É QUE PAGA

A maior parte dos inquiridos vive em fogos habitacionais onde o frio não hiberna, em edifícios construídos entre 1980 e 2000 e em residências sem qualquer isolamento. “O que falhou no sector da construção civil — principalmente durante as décadas de 70 e 80, em que se edificou desenfreadamente — é que os construtores só olhavam para a venda e para o lucro, optavam por materiais mais baratos, o que fazia com que não pensassem em isolar as habitações convenientemente”, denuncia Aline Guerreiro.

“Quem comprava as casas olhava para o resultado final ou para a banheira de hidromassagem e não queria saber da eficiência térmica”, acrescenta a arquiteta, apontando o dedo à “falta de fiscalização” durante a fase de obra. “Tem de haver uma responsabilização maior por falhas que se venham a verificar, aplicada aos técnicos que assinam os projetos. Porque, enquanto não houver alguém a pagar por estes erros, situações do género vão continuar a acontecer”, adverte a investigadora, depois de verificar que 37 por cento dos inquiridos moram em casas sem qualquer isolamento.

As fissuras na eficiência térmica são vastas e podem também ser justificadas com “o baixo desempenho de vãos envidraçados e portas, com caixilharias desadequadas”, que “representam entre 25 a 30 por cento das perdas térmicas”, como se lê no relatório do Portal da Construção Sustentável.

E quando o empreiteiro não tem juízo, o corpo é que paga. “As famílias mais desprotegidas, as que habitam bairros sociais, têm, normalmente, mais problemas de humidade e mesmo de manchas de bolor no interior, sobretudo nos quartos”, um quadro traçado, ao Expresso, pelo engenheiro civil, Vasco Peixoto de Freitas. “Muitas dessas casas não estavam isoladas, mas agora, após a reabilitação, o isolamento já se verifica. O problema é que, para ter um pouco mais de calor dentro dos edifícios, as pessoas fecham tudo, não criando ventilação, o que coloca em causa a saúde e a qualidade do ar”, acrescenta o professor da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto.

Mas quais podem ser os riscos para os ocupantes? O catedrático faz o sumário: “Num quarto com condensações e bolores, os moradores inalam os esporos. Isto tem consequências nefastas para qualquer indivíduo, sobretudo se tiver doenças respiratórias”, alerta Vasco Peixoto de Freitas, avaliando a mortalidade ao longo do ano. “Sabemos que, nos climas mais moderados, a mortalidade cresce nos primeiros meses”, algo que pode ser respondido “pelo facto de as casas não serem confortáveis”, embora o engenheiro frise que, a partir de 1990, passaram a existir exigências térmicas bastante rigorosas na construção.

Para que haja conforto no lar, as normas da União Europeia recomendam uma temperatura interior de 22 graus, mas as dificuldades chovem num país em que o orçamento das famílias obriga a um período de seca nos gastos. “O rendimento é muito menor do que o da média europeia, o custo da energia dos mais caros da Europa e uma certa amenidade do clima fazem com que vivamos nestas casas tão desconfortáveis”, argumenta o docente da FEUP.

“Somos todos escravos do que precisamos”, como preconizou Jorge Palma, porque “o sistema é antigo e não poupa ninguém”. Mas “a gente vai continuar”: a bater os dentes, com um briol de trazer por casa.