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Ministro da Defesa diz que convite da TVI a Mário Machado é atitude incendiária

MANUEL DE ALMEIDA/Lusa

“Vivemos tempos complexos e é preciso ter a noção que uma atitude destas por parte da estação em causa não é muito diferente de quem ateia incêndios pelo prazer de ver as labaredas”, defendeu João Cravinho no Twitter

O ministro da Defesa criticou esta sexta-feira a decisão da TVI de convidar Mário Machado, líder do movimento de extrema direita Nova Ordem Social, para um programa televisivo, considerando-a não muito diferente da de quem ateia incêndios.

"Vivemos tempos complexos e é preciso ter a noção que uma atitude destas por parte da estação em causa não é muito diferente de quem ateia incêndios pelo prazer de ver as labaredas", escreveu João Cravinho, num texto publicado ao final da manhã na sua conta do Twitter.

Mário Machado, condenado por envolvimento na morte de Alcino Monteiro, foi convidado no âmbito da rubrica "Dica de sua (In)Justiça", do programa Você na TV, da TVI, que tinha como tema "Precisamos de um Novo Salazar?".

O ex-líder da Frente Nacional esteve preso dez anos, em cúmulo jurídico, por crimes como discriminação racial, coacção agravada, posse ilegal de arma, danos e ofensa à integridade física qualificada.

Um dia depois de o programa ter sido emitido, o Sindicato dos Jornalistas anunciou esta sexta-feira que vai apresentar uma queixa contra a TVI junto do regulador e da Assembleia da República pela presença de Mário Machado no programa da TVI.

Mário Machado foi convidado para ir ao programa televisivo, no âmbito da rubrica "Diga-me de sua (In) Justiça", da responsabilidade de Bruno Caetano, que a TVI identifica como repórter.

Num comunicado intitulado "Em nosso nome não!", publicado hoje na página da Internet, o Sindicato dos Jornalistas (SJ) considerou "inqualificável o tempo e o espaço concedido pelo canal de televisão TVI a Mário Machado, conhecido líder da extrema-direita, várias vezes condenado e preso por diversos crimes".

"Os programas "Você na TV!" e "SOS 24", nos canais TVI e TVI24, respetivamente, deram voz a um racista explícito e um salazarista assumido, que defende o regresso de Portugal à ditadura e a quem foi dada a oportunidade de se dedicar ao branqueamento histórico, em sinal aberto e para um grande público, com pouco ou nenhum contraditório", sublinha o SJ.

No atual contexto europeu, escreve o SJ, "é fundamental que o jornalismo se exerça em defesa da democracia, sem a qual a liberdade de expressão não existiria".

"Esse mesmo contexto, de crescimento da extrema-direita, do populismo e do nacionalismo, impõe que os jornalistas -- a título individual, mas também os órgãos de informação, suas direções e administrações - reflitam sobre o papel que desempenham na eliminação do racismo, da xenofobia e da discriminação - e, sobretudo, ajam em conformidade", lê-se no texto.

No entendimento do SJ, a opção da TVI foi "irresponsável" e, por isso, insta a que o canal a que pare de usar indevidamente o termo "repórter", que só deve ser aplicado a quem é, efetivamente, jornalista com carteira profissional.

Na nota, o SJ sublinha também que o "entretenimento - que, por vezes, serve de refúgio para contornar regras e violar princípios -- também tem de respeitar a Constituição da República Portuguesa".