Sociedade

#género. Está na hora de nos despedirmos do Pai Natal?

16 dezembro 2018 9:00

Depois do Pai Natal, a vez da Mãe Natal?

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16 dezembro 2018 9:00

Querido Pai Natal,

Espero que não te importes que te trate assim. Afinal, para mim continuas a ser o velho barrigudo de barbas bancas que não cabe nas chaminés e que se multiplica pelos centros comerciais de todo o mundo, ouvindo os pedidos das crianças que se sentam no teu colo. Não sei durante quanto mais tempo te poderei tratar assim. Parece que a tua existência é uma coisa muito heteronormativa. O futuro, defendem alguns, pertence à Mãe Natal. Ou, melhor ainda, à Pessoa Natal, porque se queremos ser politicamente corretos o melhor mesmo é que o género seja neutro.

Não é coisa que me apoquente, devo confessar. Por mim, até acabávamos com esta tradição, que enganarmos as crianças desde pequenas não é um grande ensinamento para a vida. E talvez não fosse má ideia acabar também com as religiões, que estão na base de tantos males no mundo. É possível que milhões de pessoas se ofendam com a ideia, mas se não quisermos ser tão radicais podemos ao menos discutir o género do Menino Jesus? Porque é que não pode ser uma menina? Porque é que tem sequer de ter um género? E porque é que Deus há de ser um homem? E o Papa? Não está na altura de ser uma mulher?

Por mim, acabava-se também com o Papa, esse símbolo do poder patriarcal. E depois com as histórias de Romeu e de Julieta, que durante séculos perpetuaram estereótipos de género. Está na hora de criar novas narrativas, em que Romeu se apaixona por um João; em que Julieta sacrifica a sua vida por uma Diana; e, porque não, em que um Pedro passou a ser uma Inês.

Mas talvez, só talvez, possamos escrever estas novas narrativas sem necessidade de apagar as de outrora. Talvez possamos aprender com o passado para escrever um futuro melhor. Com novos protagonistas, mulheres, homens, transgénero, sem género. Onde caibamos todos, independentemente do género, da raça ou da orientação sexual. É essa nova História que urge escrever.

Não sei, querido Pai Natal, se haverá lugar para ti nesta revolução. Pelo sim, pelo não, pedirei à minha irmã que vista o fato este ano. Há que começar pelos pequenos gestos.

Neutramente,

Nelson Marques