Sociedade

Consumo de peixe e carne é a principal causa da grande Pegada Ecológica do concelho de Almada

26 outubro 2018 12:56

Se toda a população mundial tivesse o nível de consumo de recursos naturais do município de Almada, seriam necessários 2,4 planetas para tornar esse consumo sustentável

luis barra

Projeto liderado pela associação ambientalista ZERO, pioneiro a nível mundial, calcula pela primeira vez a Pegada Ecológica e a Biocapacidade à escala do concelho. Começou por Almada, Lagoa, Bragança, Guimarães, Vila Nova de Gaia e Castelo Branco, e vai propor novo sistema de financiamento dos municípios baseado no desempenho ambiental

26 outubro 2018 12:56

A alimentação representa a maior componente da Pegada Ecológica dos 170 mil residentes do concelho de Almada, com um peso de 28%, seguida dos transportes, com 21%, revelam os resultados do projeto “Pegada Ecológica dos Municípios Portugueses”, a que o Expresso teve acesso. E a principal responsável pela elevada pegada da alimentação é o consumo de peixe (26%) e de carne (23%).

O projeto, coordenado pela associação ambientalista ZERO e que envolveu a organização internacional Global Footprint Network e a Universidade de Aveiro, é pioneiro a nível mundial, porque pela primeira vez mede a Pegada Ecológica e a Biocapacidade à escala de cada município. Para já envolveu os concelhos de Almada, Lagoa, Bragança, Guimarães, Vila Nova de Gaia e Castelo Branco. Mas numa segunda fase o objetivo é estender o projeto aos municípios de todo o país.

Os dados utilizados são de 2016 e revelam que a Pegada Ecológica de Almada correspondeu a 4,08 hectares globais por habitante, sendo 4% acima da média nacional e 3% abaixo da média da Área Metropolitana de Lisboa. Quanto à Biocapacidade do município, é de 0,24 hectares globais por habitante, isto é, 81% abaixo da média nacional.

A Pegada Ecológica mede o uso da terra cultivada, florestas, pastagens e áreas de pesca para fornecer recursos e absorver resíduos (CO2 do consumo de combustíveis fósseis) em cada município. A Biocapacidade mede a área biologicamente produtiva disponível do município para regenerar esses recursos naturais.

2,4 Terras para consumo ser sustentável

Como afirma um comunicado da ZERO, “o saldo entre Pegada Ecológica e Biocapacidade demonstra os desafios locais para inverter lógicas de consumo prejudiciais ao ambiente”. As contas são bem reveladoras: para o consumo ser sustentável, “seriam necessários 2,4 planetas Terra se toda a população mundial vivesse como um cidadão de Almada”.

Dito de outra maneira, se o ritmo de consumo de recursos naturais de Almada se verificasse a nível planetário, o chamado Dia da Sobrecarga da Terra em 2016 teria acontecido a 27 de maio. Este dia marca a data em que a população mundial passa a consumir mais recursos naturais do que a Natureza pode renovar em todo o ano, ou seja, é o dia em que a Terra entra em défice ecológico.

Os resultados do projeto “Pegada Ecológica dos Municípios Portugueses” para Almada foram esta sexta-feira de manhã apresentados na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa no Monte da Caparica (concelho de Almada), com a participação de Mathis Wackernagel, fundador e diretor da Global Footprint Network (GFN), Alessandro Galli, diretor para a Região do Mediterrâneo da mesma organização, Paulo Magalhães, coordenador do projeto e dirigente da ZERO, Sara Moreno Pires, investigadora da Universidade de Aveiro, e Catarina Freitas, diretora do Departamento de Energia, Clima e Mobilidade da Câmara de Almada. A GFN é uma organização que funciona junto da ONU e é responsável mundial pelo conceito de Pegada Ecológica e respetivos cálculos.

Entretanto, entre os dias 27 e 30 de outubro serão divulgados os resultados do projeto para os concelhos de Lagoa (27), Bragança (28), Guimarães e Vila Nova de Gaia (29), e Castelo Branco (30).

O projeto foi iniciado em 2018 e é inovador a nível mundial “pela forma como integra o conhecimento da Pegada Ecológica com o cálculo da Biocapacidade a nível local”, justifica o comunicado da ZERO. “E pelo envolvimento da sociedade civil”, bem como “pela promoção de novos instrumentos de políticas públicas que incentivem a redução de impactes ambientais dos municípios e o reforço dos serviços prestados pelos seus ecossistemas”.

Com efeito, o projeto vai durar três anos e tem três fases. No primeiro ano (2018) é avaliada a Pegada Ecológica de cada município, a Biocapacidade e a sua contribuição para a média nacional, isto é, se o município usa mais ou menos recursos naturais do que regenera. Os resultados desta avaliação poderão ser depois utilizados para informar políticas de planeamento local ou nacional.

Calculadora online da Pegada Ecológica

No segundo ano, vai ser instalada no site de cada autarquia uma calculadora online da Pegada Ecológica, de modo a que cada pessoa calcule a sua própria pegada, perceba a dimensão do impacto da sua atividade diária no território e no planeta e se consciencialize sobre os múltiplos impactos humanos no ambiente. No fundo, é uma ferramenta para alertar os agentes locais, que estimula o debate sobre a gestão sustentável dos recursos naturais.

Finalmente, no terceiro ano, o projeto vai estudar e propor uma alteração dos critérios de distribuição de fundos nacionais pelos municípios, tendo em conta os resultados da Pegada Ecológica e a contribuição de cada município para a Biocapacidade nacional. Será também possível analisar e propor políticas de coesão e equidade territorial e políticas para conservar e melhorar o capital natural do município, isto é, o seu stock de recursos naturais – geologia, solos, ar, água e todos os organismos vivos – que fornece as populações em bens e serviços.