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Irene Pimentel. “A minha candidatura não foi lida até ao fim”

Foto Marcos Borga/Visão

A historiadora Irene Pimentel não recorreu do resultado do concurso da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) que a excluiu. Mas decidiu comentar a avaliação que lhe foi feita pelo painel de especialistas, que considera “contraditória e arbitrária”. Questionada pelo Expresso, a FCT disse ao Expresso “não ser possível comentar” as críticas, “porque ainda não acabou a fase de audiência prévia e os resultados finais do concurso não foram publicados”

“Ou a minha candidatura não foi lida até ao fim ou, de forma arbitrária, decidiram que seria recusada, recorrendo a critérios novos e desconhecidos.” É deste modo que Irene Flunser Pimentel comenta ao Expresso a avaliação do júri que a excluiu do Concurso Estímulo ao Emprego Científico (CEEC), na categoria de projetos individuais, da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT). O seu, sobre as relações da PIDE/DGS com os serviços secretos da Europa e dos Estados Unidos, foi qualificado pelo painel de especialistas como “indubitavelmente relevante” e o “corolário natural da carreira bem sucedida da candidata enquanto principal perita neste campo de investigação histórica”. Mesmo assim, tal não foi suficiente para que a historiadora, Prémio Pessoa 2007 e com uma vintena de livros publicados, obtivesse um dos 500 contratos garantidos pelo concurso, contando-se entre os 3.600 candidatos que ficaram de fora.

“O que mais me choca é a contradição em que o painel científico incorre. Fazem-me uma avaliação positiva, ao ponto de se achar que este é o corolário de todo o meu trabalho anterior, e logo a seguir rejeitam o projeto por questões que são quase técnicas”, diz Irene Pimentel, cuja candidatura ocupou o lugar 244 entre as mais de 500 concorrentes a um contrato de Investigador Principal, com uma pontuação de 8,4 (sobre 10 valores). “O painel acha que não dei informações que estão lá. Podem é não estar como o painel deseja. Sempre é possível pedir mais, e é aqui que reside a arbitrariedade. Ficamos na dúvida sobre o que se espera da candidatura.”

Questionada, a FCT disse ao Expresso que “não será possível comentar” as críticas dirigidas aos painéis de avaliação, “porque ainda não acabou a fase de audiência prévia e os resultados finais do concurso não foram publicados”. Pela razão, não é possível adiantar dados acerca do número de recursos apresentados.

Outros pontos de discórdia

Irene Pimentel não está incluída neste número, uma vez que optou por não recorrer. E adianta que vai concorrer ao próximo CEEC-Individual “com exatamente o mesmo projeto”. “Gostava é que não houvesse tanta arbitrariedade”, confessa. A modo de exemplo, cita as referências bibliográficas, que o júri considerou escassas. “Porém, eu coloquei um certo número delas no ponto onde eram solicitadas. Certamente não esperavam uma lista infindável de 50 páginas, embora este seja o único campo da candidatura sem limite de carateres”, defende.

Outro ponto de discórdia é a conclusão de que Irene Pimentel “falhou” em clarificar os países, as fontes e os arquivos e as coleções a serem estudados, uma vez que “a referência a fontes orais não é suficiente”. A isto, a historiadora contrapõe que o fez, mencionando que a investigação iria decorrer em Portugal, noutros países do “ocidente” europeu e nos Estados Unidos. “Até especifiquei os arquivos, o que, aliás, não era pedido.” Em relação às fontes orais, chama a atenção: “O mais estranho e demonstrativo de uma leitura enviesada pelo painel é que a única vez que refiro a história oral - e não fontes orais - nem sequer é nas referências, mas na parte das questões éticas, que o painel considerou (positivamente) que não se colocavam.”

A dado momento, é também criticado o facto de Pimentel “não ter providenciado um calendário para o termo da investigação”, assim como as publicações, as atividades dela resultantes e o “tipo de produção” a que dará origem. “Com o devido respeito, fiz mais: apresentei o plano provisório da minha investigação, dividida em quatro partes”, reage a historiadora, explicitando: “Se o que se pretendia era que eu dissesse, por exemplo, que a fase de investigação duraria dois anos e a fase de escrita outros dois, teriam de ter mencionado esse requisito na candidatura. Eu não o fiz, pois faltaria à verdade. Pela minha experiência, só uma vez iniciada a investigação é que posso dizer quanto tempo cada fase durará.”

Concurso é “interessante e positivo”

Quanto ao concurso em si, a historiadora concede que “é muito interessante e positivo, pois significa a transformação das bolsas de pós-doutoramento em contratos de trabalho”, isto é, o “fim da precariedade” com a integração por seis anos do investigador numa Universidade. “Estou a favor da avaliação, e estou de acordo com ser reavaliada a cada seis anos”, diz. “A minha ideia de falar neste assunto agora prende-se com a esperança de que, de futuro, todo o processo seja corrigido”, termina.

O CEEC é a fase individual de uma série de concursos que estão a ser lançados pela FCT, com o objetivo de atribuir aos selecionados contratos de trabalho - que substituem as bolsas de pós-doutoramento, mais precárias. Ao Expresso, a FCT lembrou que “além deste concurso existem outras hipóteses para os candidatos que foram rejeitados”. São estes o CEEC Institucional, que disponibiliza 400 contratos de seis anos mediante concurso a ser aberto pelas instituições; o Concurso para Projeto de I&D, que recai sobre 1.600 projetos, obrigando por cada um à contratação de um doutorado; os concursos ao abrigo da Norma Transitória, motivados por cada bolseiro com mais de três anos de bolsa e que financia 2000 contratos mediante concursos a serem abertos pelas instituições; e o Avaliação das Unidades I&D, que garante 400 contratos a seis anos.