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Queixas, pedidos de ajuda e um aviso em nome de Mação, onde o fogo já é “transversal”

26.07.2017 às 16h41

Nuno André Ferreira / Lusa

Por entre as muitas críticas à estratégia de combate ao incêndio de Mação, o presidente da Câmara promete exigir, em nome do concelho, que sejam apuradas responsabilidades pelas decisões tomadas. Também a lutar no terreno desde a primeira hora, José Martins, presidente da União das Freguesias de Mação, Penhascoso e Aboboreira, diz ao Expresso que foram evacuadas quatro aldeias e denuncia “a falta de bombeiros”. “Vencer este monstro tem dado muito trabalho a toda a gente”

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

Fogo já é “transversal” a todas as freguesias do concelho de Mação, afirma ao Expresso José Martins, presidente da União das Freguesias de Mação, Penhascoso e Aboboreira. Área ardida é “significativa”, acrescenta o presidente de junta, que diz, porém, não ter informações concretas sobre o número de hectares ardidos.

Foram evacuadas quatro aldeias na União de Freguesias a que José Martins preside – Santos, Caratão, Casas da Ribeira e Castelo – e pelo menos uma casa, “possivelmente de segunda habitação”, terá ficado destruída, informa o autarca, que se encontra neste momento em Castelo, a única das aldeias evacuadas “onde o fogo não entrou”. “Conseguimos, juntamente com o apoio dos populares, extinguir uma frente de fogo que estava muito violenta e colocava outras duas aldeias em risco. Vencer este monstro tem dado muito trabalho a toda a gente”, diz José Martins, denunciando a “falta de bombeiros” no combate às chamas.

O presidente de junta esclarece que os habitantes das aldeias evacuadas foram transportados para a Santa Casa da Misericórdia de Mação, que esta quarta-feira de manhã pediu ajuda, nomeadamente o apoio de pessoas para ajudar na confeção de refeições que serão depois distribuídas aos bombeiros, segundo a TSF. A Santa Casa estará também a pedir alimentos como esparguete, batatas, carne, águas, arroz, ovos, atum, talheres de plástico, caixas descartáveis de refeições, guardanapos e pacotes pequenos de sumos para as refeições dos bombeiros. José Martins diz também ter conhecimento de uma frente de fogo que se encaminha na direção de São Miguel de Mação.

“Não sabemos onde é que pode parar e quando pode parar“

Em declarações à Lusa esta quarta-feira, Vasco Estrela, presidente da Câmara de Mação, informou que o incêndio que lavra desde domingo passado já consumiu mais de 15 mil hectares, quase metade da área florestal do concelho, e que mantém, neste momento, três focos ativos, dois deles perto da sede de município. “Não sabemos onde é que pode parar e quando pode parar”.

Há a preocupação de que o fogo possa atingir a vila de Mação, disse o presidente, acrescentando que as chamas “estão a tomar um percurso idêntico” ao do incêndio de 2003, ano em que arderam, no total, mais de 420 mil hectares no país, segundo números do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). Foi o ano mais grave em termos de área ardida desde 1980, data a partir da qual passaram a existir esses registos.

Um outro foco que preocupa os bombeiros situa-se na zona do parque eólico de Brejo, onde, de acordo com Vasco Estrela, as chamas lavram “com grande intensidade”. Há a possiblidade de a aldeia de Eiras ser evacuada “como prevenção”, disse o autarca à Lusa, embora a população “não se encontre em risco iminente”.

O outro foco de incêndio ainda ativo localiza-se do lado norte da vila de Mação, na zona de Pereiro, indica o autarca. Vasco Estrela insistiu na necessidade de as autoridades, nomeadamente “as pessoas que têm responsabilidades no despacho de meios” para o incêndio de Mação, durante os últimos dias, apresentarem “as devidas explicações”.

“Tenho o direito de saber os critérios que estão na base das decisões que foram tomadas ao longo das horas deste fogo. Tenho estado aqui [no posto de comando] em permanência, praticamente todo o tempo, assisti a muitos procedimentos e muitas tomadas de decisão. Vou exigir em nome da população deste concelho de Mação que justifiquem decisões que foram tomadas”, afirmou o autarca.

Vasco Estrela disse que quando o incêndio terminar quer que seja feita uma avaliação dos danos causados não só em Mação, mas também nos concelhos da Sertã – onde o incêndio começou no domingo – e Proença-a-Nova (ambos nos distritos de Castelo Branco). Quer também ter informações sobre os meios que combateram as chamas nos três municípios e sobre o número de localidades evacuadas e pessoas deslocalizadas. “Quero saber se há aqui consequências diretas ou indiretas sobre tudo o que aconteceu”, disse.

Também esta quarta-feira, a Proteção Civil respondeu às críticas dos bombeiros e autarcas sobre a deslocação de meios no terreno, dizendo que houve movimentação de meios para combater situações a que era obrigatório responder. “Quem está no terreno a combater o fogo dificilmente tem uma perceção global da situação operacional. Havia várias ocorrências ao mesmo tempo e situações a que tínhamos de responder. O comando nacional assumiu a coordenação estratégica pois é isso que está determinado”, disse Patricia Gaspar, da Autoridade Nacional da Proteção Civil (ANPC).

O primeiro-ministro desloca-se esta tarde, às 17h30, à Autoridade Nacional de Proteção Civil, em Carnaxide, para uma reunião com os responsáveis operacionais sobre a situação dos incêndios em Portugal, disse à Lusa fonte do gabinete de António Costa. No encontro, o chefe do Governo irá receber toda a informação atualizada sobre a situação dos incêndios em Portugal, acrescentou a mesma fonte.

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