24 março 2023 9:29

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O crítico de vinhos João Paulo Martins revela os grandes segredos do mundo da vitivinicultura
24 março 2023 9:29
Nestes dias de março em que escrevo estas linhas podemos descobrir duas situações muito distintas nas vinhas que encontramos à beira da estrada: umas já estão podadas e prontas para o novo ciclo, mas outras ainda nem podadas estão. Daqui não se deve concluir que há uns produtores ajuizados e outros mandriões. O momento exato da poda não tem dia nem semana e depende muito do clima. Repare-se: em zonas que sejam mais atreitas a geadas de primavera, a poda tardia pode ser aconselhável porque uma geada forte queima a vinha e, se ela já tiver rebentos e folhas, é provável que a produção do ano fique irremediavelmente comprometida. Sabe-se que há zonas mais propícias a geadas do que outras e é maleita muito difícil de combater. O clássico exemplo que ilustra os males que a geada provoca vem da zona de Chablis, ao norte da Borgonha. Ali, de tal forma é acidente climático recorrente que os produtores tentam combatê-la ateando fogueiras ao longo das vinhas para fazer subir a temperatura e assim evitar o desastre. Normalmente resulta mas, se for violenta, a geada — da noite para o dia — transforma uma vinha numa verdadeira ‘terra queimada’. E não há regiões imunes, que bem me recordo de ver fotos de vinhas no Alentejo que mais pareciam ter sido arrasadas pelo fogo. Assim sendo, uma poda tardia pode ajudar a salvar a colheita. O que se corta e o que se deixa nas varas da videira depende do que se pretende e do perfil do vinho que queremos obter dali. Há técnicas diferentes e se para um leigo o que se deve cortar é óbvio, para um técnico é tudo diferente. Ensinar bem os podadores é assim fundamental para que o trabalho seja bem feito. Mas infelizmente não chega. Uma das maiores dores de cabeça de quem tem vinhas é pensar que uma tesoura de poda possa ser um transmissor de doenças (fungos) de uma cepa para outra. O pânico tem nome — esca — e é uma doença do lenho, ou seja, da parte lenhosa da planta, e é aconselhável que quando se deteta uma planta atacada durante o ciclo vegetativo ela deve ser marcada para ser arrancada na altura da poda e queimada. Como se trata de uma doença ‘peça a peça’, numa mesma vinha pode haver plantas doentes e outras sãs. O ideal seria que após o corte em cada cepa a tesoura fosse desinfetada para não levar a desgraça para a planta seguinte. O problema é gravíssimo porque não se vislumbra solução técnica conclusiva e sente-se por toda a Europa. É mais um, tal como há uns anos tocaram os sinos por causa de outra praga — flavescência dourada — que, essa sim, obriga ao arranque de toda a parcela. Hoje há tratamentos para este mal, obrigatórios para todos, mesmo para os produtores que defendem a pouca intervenção na vinha. Sem querer ser pessimista, a verdade é que a vinha é um campo fértil para tudo quanto é bicharada e produzir uvas sãs é muito mais difícil do que se imagina. Se se quer ter bom vinho todos os anos, não há grande volta a dar, é preciso intervir, proteger, analisar e tratar a tempo e horas. Por essas e por outras é que há vignerons que passam religiosamente todo o dia na vinha, com toda a atenção, para que corra bem o que tem quase tudo para correr mal. E em cada ano renasce a esperança, sob o lema: este ano é que vai ser! É a vida do agricultor.