Vinhos

O Expresso nasceu com este vinho: nos anos 70 custou 145 escudos. É só fazer as contas...

6 janeiro 2023 15:21

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João Paulo Martins escreve semanalmente sobre o mundo dos vinhos. Esta semana, fala sobre o Serradayres com que se celebrou o primeiro número do Expresso

6 janeiro 2023 15:21

É verdade, Francisco Pinto Balsemão confirmou que foi com um Serradayres que se celebrou o primeiro número do Expresso. Poderia ter sido outro, uma vez que algumas das marcas de vinho hoje existentes, e conhecidas de todos, já existiam então. Para acompanhar peixe poder-se-ia ter bebido brancos como Gaeiras, Planalto, Dão Terras Altas, Deu-la-Deu ou Porta dos Cavaleiros, marcas sempre presentes na restauração. No caso dos tintos, havia mais escolha, tudo numa gama com qualidade mas acessível no preço: Vinha Grande — já então conhecido como “Barca Velha dos pobres” —, Evel, Grantom, Romeira, Quinta do Convento, Periquita, Pasmados ou Quinta da Aguieira. Na planície alentejana, além das adegas cooperativas, a escolha era pouca mas o Mouchão, José de Sousa Rosado Fernandes ou Tapada do Chaves seriam também boas opções. O mesmo se passava em relação à Bairrada em que as Caves — Aliança, S. João e muitas outras — dominavam o panorama vínico, engarrafando vinhos de várias regiões, como os célebres Garrafeira que, por norma, resultavam de lote de Dão com Bairrada. As marcas eram então mais importantes que as regiões, uma vez que poucas tinham regras instituídas: o Douro, o Alentejo, a Bairrada, Setúbal, Estremadura, Ribatejo ou Algarve não eram regiões demarcadas e às casas produtoras assistia o direito de misturar vinhos sem que tal viesse sequer indicado no rótulo e vender marcas sem informar a origem. Quem não se lembra dos vinhos com siglas enigmáticas da José Maria da Fonseca? De onde eram, ninguém sabia. Era sobretudo a marca que tinha valor. Assim, ter tintos Garrafeira Carvalho, Ribeiro & Ferreira, Caves Dom Teodósio, Francisco Ribeiro, Serradayres ou C. Vinhas era sinal de bom gosto e de disponibilidade financeira, embora mesmo à época, os vinhos não fossem caros. Foi bem mais tarde, em 78, que comprei o meu primeiro Barca Velha, que então me custou 220 escudos, quando o meu limite de gastos em vinho ‘parava’ nos 50 escudos! Outros tempos…

Não sei do que se falou durante o tal Almoço, mas seguramente ninguém perdeu tempo a falar das castas dos vinhos, das barricas em que tinham estagiado, dos enólogos que tinham feito o vinho, das leveduras ou dos sulfitos. Infelizmente, o mais provável é que, no final, tenham bebido whisky em vez de Vinho do Porto, bebida então mal-amada pelos consumidores. Todos tinham uma garrafa em casa mas poucos as abriam. Vintage? Deve ser um vinho com 20 anos! Tawny? O nome é giro mas ninguém sabe o que significa e por aí fora. É claro que o vinho (e ainda bem) não nasceu com o Expresso, já havia alguma escolha. No entanto, a falta de informação sobre o assunto, nomeadamente na imprensa, o fraco conhecimento dos consumidores sobre o que bebiam e a pouca importância que se dava ao vinho, ajudavam à generalização do jargão vulgar, mas mais típico de tasca: o bom vinho é o copo cheio; se não houver vinho bebe-se branco; vinho, quanto mais velho melhor; o bom tinto tem de aquecer na lareira! Foi longa a caminhada mas 50 anos ainda não foram suficientes. Há muito trabalhinho por fazer.

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