Vinhos

Vinhos: mesmo em cima da hora, algumas indicações finais para que tudo corra bem

23 dezembro 2022 17:15

westend61

João Paulo Martins desvenda semanalmente os segredos dos vinhos, esta sexta-feira com foco na noite da Consoada

23 dezembro 2022 17:15

É já amanhã a noite da consoada e, no dia logo a seguir, é provável que se reproduza “La Grande Bouffe”, ainda que em versão caseira. O facto de se comer em excesso e de se beber uns copos a mais não significa que os mais elementares procedimentos de serviço não sejam cumpridos. Refiro-me, naturalmente, aos vinhos, a parte verdadeiramente intelectual da refeição. O mais provável é que o enófilo, no desejo de tudo servir como é suposto, coloque com antecedência os brancos e os espumantes no frigorífico, deixando que, para os tintos, o frio exterior seja o suficiente para termos os tintos à temperatura certa. Isto, claro, porque o tempo dos tintos à lareira já lá vai há muito. No tema específico dos brancos há um erro frequentemente cometido, ainda que a intenção tenha sido boa. Explico-me: os brancos só devem ir para o frigorífico depois de terem sido previa­mente abertos e provados. A razão é prosaica mas verdadeira: o frio do frigorífico tende a tapar alguns defeitos, nomeadamente o famigerado “cheiro a rolha”. Esse defeito, que inexoravelmente condena o vinho à ruína, é muito mais fácil de detetar se o vinho estiver a uma temperatura mais elevada, digamos, à temperatura ambiente. O procedimento correto é então deitar um pouco de vinho num copo, agitar e cheirar e, se for necessário, provar o vinho para termos a certeza que tudo está OK. Devo confessar que aprendi esta regra depois de muita asneira, quando só provava o vinho quando o tirava do frio. Acontece que se o teor de cheiro a rolha for incipiente, só se dá por ele quando a temperatura sobe com o vinho no copo. Aí é tarde demais e depois fica tudo mais atrapalhado. A regra é também válida para os tintos, sejam eles decantados para um jarro bonito, sejam depois colocados de novo na garrafa, após a decantação e lavagem da garrafa.

É bom nunca ir para a mesa com dúvidas por esclarecer sobre a saúde dos vinhos. Recordemos que os tintos novos podem não necessitar de decantação, mas com sete ou mais anos, é normal que se comece a criar depósito na garrafa (no fundo ou nas paredes) e por isso a decantação é obrigatória. Para estas tarefas é fundamental ter, além do saca-rolhas normal, o outro já por vezes aqui referido, o chamado saca-rolhas de lâminas, indispensável sempre que sentimos que, com o “normal” a rolha não quer sair por estar colada ao gargalo. Neste caso o modelo das duas lâminas é absolutamente imprescindível. É óbvio que poderá tratar deste assunto de véspera porque o vinho branco não será decantado e, a pequena quantidade que usou para fazer o teste, volta para dentro da garrafa, põe-se a rolha e temos assunto encerrado. Já no caso dos tintos é melhor só tratar deles no próprio dia. É que a decantação, com o arejamento a ela associa­do, pode não trazer grande saúde ao vinho. Este é um tema muito controverso porque alguns vinhos beneficiam com a decantação mas outros perdem qualidades. Não há regra que se possa enunciar, é mesmo caso a caso e por isso é melhor não arriscar. Se ao abrir a garrafa e provar sentir o vinho “no ponto”, não decante. Se encontrar um aroma menos limpo, algo “preso” e que não corresponde à ideia que tinha do vinho, então nesse caso pode decantar com antecedência. Boas provas e grande convívio são os meus votos.

Este é um artigo do semanário Expresso. Clique AQUI para continuar a ler.