Vinhos

Vinhos do Porto velhinhos mas cheios de genica: a arte da paciência quase infinita

9 dezembro 2022 17:06

João Paulo Martins revela semanalmente os segredos do mundo dos vinhos

9 dezembro 2022 17:06

Os vinhos do Porto com indicação de idade conheceram recentemente duas novas categorias, o tawny 50 anos e o Very Very Old, este para vinhos do Porto com 80 ou mais anos. Até agora existiam quatro categorias — 10, 20, 30 e 40 anos, vinhos longamente envelhecidos em casco e que representam a melhor tradição dos vinhos ‘feitos’ no Porto. De facto, durante gerações, era no Porto (mais propriamente em Gaia) que os vinhos envelheciam, era lá que estavam os provadores e era ali que se faziam os lotes. Até aos anos 80 do século passado o mundo do Vinho do Porto era assim que funcionava. Com más estradas, maus alojamentos e (no caso da maioria das empresas) sem quintas próprias, os homens de Gaia raramente iam ao Douro. Ninguém sabia de que parcela vinham as uvas, com que castas eram feitos os vinhos ou como era a viticultura; o que chegava a Gaia eram amostras de vinho já feito que, depois, podiam ou não ser comprados pelos exportadores. Temos então que a ‘educação’ do vinho era feita nas caves de Gaia, de clima mais ameno e beneficiando da proximidade do mar. Fugia-se desta forma aos tórridos estios durienses que conferiam aos vinhos um toque aborrachado/queimado e que ainda hoje é percetível nalguns vinhos. Todos os anos os pipos destes tawnies são esvaziados e os vinhos passados a limpo e separados das borras: essas são depois filtradas e o vinho que dali resulta volta para as barricas. Provas periódicas vão revelando se o vinho está a evoluir bem e se pode continuar a envelhecer. O tempo que isto demora depende da qualidade intrínseca do vinho, dos objetivos comerciais da empresa e do perfil que se quer para os lotes. Por norma, todas as empresas têm em casco vinhos que podem chegar aos 100 anos. Quando chega a hora do engarrafamento, juntam-se amostras na sala de provas e procura-se fazer um lote que seja tão idêntico quanto possível ao anterior. No caso dos 10 anos chegam a fazer-se vários lotes por ano, nos 40 anos é normal fazer-se apenas um anualmente; a data do engarrafamento vem indicada na garrafa. O enólogo e o provador — figura ainda existente em várias empresas, como no grupo da Fladgate — decidem então o perfil do vinho, respeitando o estilo da casa. Nem todas as casas têm todas as categorias — a Ramos Pinto, a Ferreira e a Offley, por exemplo, não têm um 40 anos — e no caso de empresas que resultaram da junção de várias casas (Sogrape, Symington, Sogevinus, Fladgate) é normal que cada marca tenha o seu estilo. É bem mais difícil do que parece distinguir o perfil das várias casas quando provadas lado a lado, como aconteceu recentemente na prova promovida pela Fladgate Partnership (Taylor’s, Fonseca, Croft, Wiese & Krohn, Romariz), onde ficámos a conhecer o provador de cada uma delas. São personagens emblemáticas, que representam o que de melhor havia na arte de provar e de gerir os stocks de cada uma das casas. É neles que recai a responsabilidade de assegurar a saúde de todas aquelas pipas que, como nos disse David Guimaraens, chefe de enologia do grupo Fladgate, são 11 mil cascos! Aqui entra a pergunta inevitável: como é que há nariz que tanto aguente??? Tem um amigo que faz 40 ou 50 anos? E que tal ponderar a hipótese de lhe oferecer um tawny velho da idade dele?