Vinhos

A era dos vinhos glu-glu: são ligeiros mas não magricelas

26 novembro 2022 23:41

nancybelle gonzaga villarroya

João Paulo Martins revela semanalmente os grandes segredos do mundo dos vinhos

26 novembro 2022 23:41

Os ventos da moda correm agora a favor dos vinhos abertos de cor, ligeiros no corpo e muito fáceis de beber. Por isso mesmo são os vinhos que apelidamos de glu-glu, conviviais, descontraídos e refrescantes. Como e porquê se chegou aqui pode dar tema para imensas conversas à volta da mesa. Estou em crer que esta nova moda surge por reação, por antinomia à moda que varreu o mundo dos vinhos durante uns bons 20 anos — a chamada era Parker. O célebre crítico de vinhos americano — Robert Parker, entretanto retirado — criou uma moda que ia a jeito do seu gosto pessoal: vinhos muito carregados de cor, com muita extração, muito álcool e muita madeira nova. Eram vinhos que alguém (que não recordo o nome) chamou de “vinhos After Eight”, ou seja, com notas de chocolate, de mentol, doces e, claro, cansativos ao final do primeiro copo. O exagero chegou depois às barricas, quando, após um primeiro ano em barrica nova, se voltava a colocar o vinho de novo em barrica nova, ou seja, 200% de barrica.

A moda pegou em Espanha e espalhou-se. Durou o que durou e modificou perfis tradicionais, como foi o caso dos tintos de Bordéus. Depois, por reação, os produtores começaram a procurar outras coisas e chegámos então à situação atual, em que, ainda que os tintos carregados e densos não tenham desaparecido, surgiram novos vinhos a contrario dos anteriores: tudo a menos, cor, álcool e madeira. Ora, isto foi a oportunidade de que as nossas castas antigas estavam à espera. Por si, a grande maioria tinha pouca cor, eram delgadas de corpo e, por isso, condenadas ao ostracismo na era Parker, mas, muito justamente, foram reabilitadas agora. Uma das primeiras a ser reavaliada foi a Bastardo, uma casta muito antiga no Douro e que sempre produziu vinho com muito pouca cor. Creio que o primeiro varietal terá sido na Quinta do Côtto, nos anos 70 e 80, ainda que com um perfil muito diferente e distante dos atuais Bastardo. Hoje são vários os produtores que a têm no portefólio. Ao lado da Bastardo foram surgindo outras, também “descoradas”, mas que dão vinhos de grande interesse gastronómico, como a Mourisco, Malvasia Preta, Cornifesto, Tinta Francisca, entre outras.

Este é um artigo do semanário Expresso. Clique AQUI para continuar a ler.