Vinhos

O vinho é uma paisagem e de Londres vê-se Bordéus

11 novembro 2022 16:29

A colheita de 2018 em avaliação

11 novembro 2022 16:29

Decorreu no passado dia 1, em Londres, a prova anual organizada pelo Institute of Masters of Wine, de vinhos de Bordéus. Naturalmente, dada a imensidão de selos da zona bordalesa (cerca de 8000) a seleção apontou para 83 marcas, onde se contavam algumas das mais famosas proprie­dades. Apesar disso, alguns ‘monstros’ estiveram ausentes, como Chateau Latour, Lafite, Mouton Rothschild, Pavie, Ausone ou Yquem, só para citar alguns. A prova tem duas horas e cada provador pode testar o que entender. Num caderno apontam-se uma ou duas características de cada vinho, dá-se uma classificação só para estabelecer uma hierarquia e segue-se em frente. A prova apenas contempla vinhos tintos e meia dúzia de brancos doces de Sauternes. O tema eram os vinhos de 2018. Provei cerca de 70 vinhos e não me restam dúvidas (até por provas de anteriores colheitas, como 2015) que o perfil dos tintos de Bordéus está a mudar, ainda que nem sempre no bom sentido.

Os vinhos de 2018 são ainda muito novos e, tradicionalmente, estariam ainda ‘imbebíveis’, duros, fechados e taninosos. Esta tradição mudou e hoje estes vinhos estão aptos à prova mal saem da adega. Os ‘monstros’ de outrora viraram apenas monstrinhos e são hoje tintos sedosos, subtis e extremamente agradáveis de beber. Neste sentido a prova é fácil. Dirceu Viana, brasileiro e único Master of Wine de língua portuguesa, comentou comigo que esta uniformização de estilo faz com que o consumidor possa beber um belo vinho por uma fração do preço das grandes marcas; as alterações climáticas tiveram o efeito de permitir boas colheitas em anos sucessivos, mas o 2018 (ano quente) fez com que as graduações voltassem a subir para níveis impensáveis nos anos 80; tivemos em prova 46 vinhos com 14,5% de álcool e 6 com 15 ou mais graus, ou seja, mais de metade dos vinhos presentes. É verdade que tal não é perturbador na prova porque o álcool está muito bem integrado entre a fruta e as barricas. Aqui o trabalho é notável e apenas dois ou três vinhos se mostraram com excessos de madeira.