Vinhos

Vinho do Porto: O mais difícil já passou

5 novembro 2022 17:10

É o que se ouve agora na Graham’s

5 novembro 2022 17:10

Já ouvi tantas versões que já não sei a quem se atribuía a frase que justificava a fama e o sucesso do Chateau Mouton Rothschild, em Bordéus: “O mais difícil são os primeiros 200 anos!” Antes de mais, a frase lembra aos apressadinhos que não se chega ao Éden por uma breve epifania, mas antes por um trabalho sistemático e continuado sem cedências na qualidade. Creio que aquela máxima se aplica bem à empresa de Vinho do Porto Graham’s que comemorou 200 anos em 2020. Só agora, passada a pandemia, houve oportunidade de juntar um pequeno grupo de Port Lovers para, solenemente, lembrar o longínquo ano de 1820 em que os irmãos William e John Graham, escoceses de origem e em Portugal para negociar têxteis, receberam como pagamento, não dinheiro mas 27 pipas de Vinho do Porto. A qualidade era tão alta que eles resolveram estabelecer-se também como negociantes do generoso. Mais tarde, em 1890, adquiriram a Quinta dos Malvedos, entre o Pinhão e a foz do Tua. Durante toda a sua existência e até à venda da empresa à família Symington em 1970, a Graham abasteceu-se maioritariamente junto de lavradores que faziam o vinho e o vendiam já feito à empresa. Era assim o negócio do Vinho do Porto até à década de 80 do séc. XX. Os Graham venderam a empresa e, mais tarde, em 1981, a Quinta dos Malvedos. Hoje a Graham’s é um dos pilares da Symington e os seus vintages os mais afamados. Com o enorme crescimento da família — hoje um dos maiores proprietários de hectares de vinhas no Douro — juntaram-se à Graham, a Dow’s, Warre, Cockburn’s, e Quinta do Vesúvio. O modelo de negócio mudou bastante e, das 15 a 20.000 caixas de 12 garrafas que nos anos 80 correspondiam a uma declaração de vintage Graham’s, hoje opta-se por declarações minimalistas com elevadíssima qualidade que, pela raridade, possam continuar a suscitar o apetite dos compradores, quer nacionais quer estrangeiros, sobretudo o tradicional mercado inglês e dos novos mercados, onde se destaca o americano. O ramo Graham permaneceu no sector do Porto através de John Graham, que fundou a empresa Churchill Graham. Uma das maiores, senão mesmo a maior mudança, foi precisamente a aquisição de quintas, deixando a Symington de estar dependente dos lavradores e passando ela a vinificar. Agora compram-se uvas, não se compra vinho. Isto significa um mais elevado controle sobre todo o processo, da vinha ao vinho, com a consequente melhor identificação e destino dos lotes: para Vintage, para LBV, para Colheita, para Tawnies com indicação de idade ou para Vinho do Porto de entrada de gama, além dos DOC Douro. Nunca os irmãos escoceses poderiam imaginar o sucesso que se obteve pela acertada decisão de começar um negócio com 27 pipas de vinho; hoje é bem mais difícil, uma vez que são precisas 150 pipas de Vinho do Porto em stock para arrancar com uma empresa. E já foi bem pior, porque até há poucos anos eram 300 as pipas que se exigiam. Por isso alguém disse que era mais fácil criar um banco de raiz do que uma empresa do Vinho do Porto. Para comemorar a data, a família Symington (atualmente a 5ª geração) criou um móvel de luxo — 30 unidades apenas — com vintages Graham’s e Porto Colheita, copos e decanter em cristal. Um luxo que se espera atinja os €25.000 em leilão. A bem dizer, não é fácil chegar aos 200 anos, e há que ter dignidade no ato da comemoração.