Design

Borrachas, mundiais e estádios de futebol: poucas coisas se apagam facilmente e sem consequências

25 novembro 2022 11:44

Guta Moura Guedes

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Guta Moura Guedes escreve semanalmente sobre o mundo do design

25 novembro 2022 11:44

Guta Moura Guedes

Há mais de um ano escrevi aqui sobre estádios de futebol. Foi depois de um jogo do Europeu, um Portugal/Bélgica em que perdemos. Escrevi sobre estádios como exemplos de obras de arquitetura que servem, também, para demonstrar poder, força, domínio e que se instalam como cogumelos na paisagem, às vezes urbana, às vezes semiurbana. Que proliferaram durante anos sem que se percebesse o impacto ambiental que têm, não só pela forma como são construídos, como também pelo consumo energético e libertação de carbono que produzem depois. Durante este mundial e a propósito de estádios, decisões e de algumas palavras que têm sido ditas, cá e lá fora, escrevo hoje sobre borrachas. Não quaisquer, porque há muitos tipos de borracha e com vários usos, mas as que servem para apagar, as que agora quase já ninguém usa.

A borracha é um produto natural, derivado do látex de uma árvore, a Hevea brasiliensis, só mais tarde começámos a usar derivados do petróleo como seu substituto, chamando-lhe borracha sintética. A borracha de que falo aqui é o objecto que tem o mesmo nome do material e que criámos com o propósito de apagar palavras, riscos, feitos a lápis ou a caneta, à mão, tendo como intenção corrigir algo que não estaria bem - um deslize no contorno, uma palavra errada, raramente uma página inteira. O design das borrachas ao longo do tempo não varia muito. Tem uma condicionante inicial muito forte, que é a escala da nossa mão. As borrachas são para serem usadas quando escrevemos e o seu formato sempre se orientou nesse sentido, mãos mais pequenas ou maiores, pouca variação de escala e de forma, poderíamos ter ficado só por uma não fosse a nossa espécie tão criativa, por um lado, e tão necessitada de variações e estímulos, por outro. Apareceram lápis que no topo tinham uma miniborracha, borrachas coloridas, borrachas pontiagudas ou irregulares, umas mais suaves, para lápis, outras duras e azuladas, para as canetas. O facto é que apagavam o que era suposto apagar e deixavam pouco rasto, quase não se notava, o erro desaparecia, e podíamos recomeçar de novo, sem consequências para a obra em si.