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As histórias que cabem numa lata de caviar: De superalimento a luxo incompreendido

31 dezembro 2022 11:00

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Ajudou a alimentar pescadores e deslumbrou czares. Enquanto era suporte de um regime político, muitas crianças não o suportavam, mas estrelas de mundo inteiro faziam tudo para o ter por perto. O caviar é um dos alimentos mais falsificados e mal interpretados. O peso da história dá-lhe o estatuto de alimento universal e completo, e até podia ser produzido em Portugal

31 dezembro 2022 11:00

“A

mãe dá uma colherzinha na boca da criança, mas ela faz uma cara feia e começa a choramingar porque é um bocado salgado, sabes, mas a mãe insiste. — Vá, come uma colherzinha, come!” Foi assim que Valeriy Afilov e muitas outras crianças da sua geração começaram a comer caviar. “Em casa as pessoas tinham muitas vezes uma lata de 600 g de caviar no frigorífico. Quando chegavam visitas punham um bocadinho de caviar em pedacinhos de pão com manteiga para oferecer e davam também às crianças, que faziam uma cara feia. Só que depois quando és adulto começas a comer… percebes o sabor, e pronto, é como as outras coisas.” Para si o caviar tornou-se um sabor adquirido ao ter crescido na região do Donbas, no leste da Ucrânia. “Nasci em Donetsk, mas antes de vir para Portugal vivia em Berdyansk, que era a terra dos meus pais, e que fica a 200 km. Durante a infância ia sempre passar os verões na casa dos meus avós, junto ao Mar de Azov.” Valeriy Afilov tem hoje 66 anos e vive no Algarve há mais de duas décadas, mas a sua relação com o caviar não se perde em memórias da infância. Ainda acalenta o sonho de voltar a criar esturjões, como fez em tempos na Ucrânia, e com eles produzir aquele que talvez seja uma das iguarias mais incompreendidas do mundo: o caviar.