Fisga

Engenharia de calendário: o que 2023 lhe reserva se quer desfrutar de fins de semana prolongados

ilustração de cristiano salgado

Começou a contagem decrescente para o ano novo e tudo aponta para que o número da sorte seja 2023. Faltam oito dias

22 dezembro 2022 18:48

Carlos Esteves

Carlos Esteves

Infográfico

Abre-se o ano com um feriado ao domingo. Mas nos restantes 365 dias são cinco as oportunidades de descanso prolongado — escolhidas, quase que a dedo, para ir ao encontro das preferências de cada um. Se gostar de águas mil, como diz o ditado popular, terá sempre a Sexta-feira Santa de abril (no dia 7). Aí, pode aproveitar o fim de semana de três dias que põe fim ao jejum no feriado seguinte, Domingo de Páscoa (9). Já a dar as boas-vindas ao mês de maio, o primeiro dia da semana também folga: o Dia da Trabalhador (1) calha a uma segunda-feira. Depois disso, só na cauda de 2023, em dezembro, pode voltar a beneficiar de três bengalas do fim de semana. A Restauração da Independência (1) e o Dia da Imaculada Conceição (8) são lapas à sexta, e é o Natal, que cai a uma segunda, que põe fim aos três dias seguidos de repouso. Mas relaxe: há ainda muitas possibilidades de tolerância de ponto.

Desta vez, o 25 de Abril celebra-se a uma terça-feira — e há maior sensação de liberdade do que poder saltar um dia? Não é um fenómeno isolado no ano que se avizinha. Na verdade, o leque abre-se num total de quatro. Dois deles nos meses de verão, quando o céu está mais luminoso. O Corpo de Deus, na quinta-feira 8 de junho, e em agosto, para quem não tira férias, há um feriado à terça (15), dia em que se assinala a Assunção de Nossa Senhora. Findo os meses de sol, entrando no outono, há uma quinta-feira feliz, no dia em que celebramos a Implantação da República (5 de outubro). Parecem boas notícias, até chegarmos aos infortúnios — que existem sempre.

Há fins de semana que apanham os feriados antes de conseguirmos chegar-lhes — talvez também precisem de descanso nosso. Os domingos, já supramencionados, apontam para o Dia de Ano Novo e para a Páscoa. Já o Dia de Portugal (10 de junho) abraçou-se, originalmente, a um sábado. Como se não bastasse — são poucos e já parecem demasiados — há um feriado que tropeça na inutilidade de quarta-feira. Mas podia ser pior, ao menos este último é dos feriados mais antecipados do ano: Dia de Todos os Santos (1 de novembro). Faça chuva, faça sol e independentemente do dia da semana em que se passa, sabe-se que tipo de véspera o antecipa. Os portugueses saem à rua — sejam as crianças, que importunam o descanso dos vizinhos com toques de campainha constantes, ou os jovens, que entopem as ruas, saltando de bar em bar.

Mas como a ocasião faz o ladrão, toda a oportunidade é boa para dar um passinho de dança. É o que acontece no Carnaval, quando a ocasião dá tolerância de ponto — este ano calha na terça-feira de fevereiro, 21, o que significa que pode roubar mais uma ponte ao calendário. Ninguém leva a mal, a não ser que se voltem a esgotar as viagens para o destino de eleição desta época carnavalesca: o Brasil. Não se acanhe e marque com antecedência se for desejo seu, já que para a passagem de ano alternativas há poucas.

PARA ONDE VÃO OS PORTUGUESES?

Este dia que abre o mês de janeiro faz parte do grupo de “feriados incontornáveis”, segundo Pedro Quintela, diretor de marketing da Agência Abreu, “junto com os de início de dezembro, propícios para os mercados de Natal ou destinos de calor” — a tendência deste ano. Mas se há feriados incontornáveis, também haverá aqueles que se podem contornar. É o caso dos Santos Populares — tudo depende do ponto do mapa em que se encontra.

São feriados dedicados aos Santos, mas a rainha nas três datas é a sardinha. Abrem as festividades no dia de Santo António a 13 de junho, que calha a uma terça-feira, voltando a dar aos lisboetas uma oportunidade de fazer um fim de semana prolongado. Segue-se o São João, que decidiu repousar num sábado (24). Já São Pedro, aliou-se à sorte e dá descanso a uma quinta-feira (29). Nestes feriados regionais, para quem não aprecia o desassossego das ruas da sua cidade, as “escapadinhas” dentro de território nacional são tradição, tal conta Pedro Quintela.

Em boa verdade, esta é uma tendência que se verifica em toda a União Europeia. Segundo dados da Eurostat, correspondentes a 2019, os europeus preferem viagens domésticas e o propósito é quase sempre o lazer. Estas pausas, embora mais do que pausas de café, são de curta duração e ocupam, na maioria dos casos, entre uma a três noites. Talvez seja essa a verdadeira definição de “escapadinha”, mas para alguns pode ser insuficiente. Apesar de oportunidades várias para um bom aproveitamento dos feriados — ainda para mais num ano como o que se avizinha, onde a possibilidade de lhes somar dias é quase ilimitado —, o nível de satisfação dos portugueses com este tempo de lazer está abaixo da média europeia e a tendência é decrescente.

Mas como a ocasião faz o ladrão, toda a oportunidade é boa para dar um passinho de dança. É o que acontece no Carnaval, quando a ocasião dá tolerância de ponto — este ano calha na terça-feira de fevereiro, 21, o que significa que pode roubar mais uma ponte ao calendário.

Com um nível de satisfação a marcar os 7 numa escala que sobe até aos 10, Portugal encontra-se na 20ª posição no que toca o contentamento com o seu tempo livre. Mas de que maneira decidem os portugueses gastar esse tempo? Dados da Marktest, referentes a 2019, indicam que a preferência é caminhar (60,6%), seguindo-se ouvir música (47,1%) e, só depois, ler (37,9%) — uma arte que se julgava perdida.

Pedro Quintela acredita que os portugueses são “viajantes natos” e que “querem aproveitar, sempre que possível, para escapar à rotina”. Mas também sabe que, por vezes, não basta ser nem querer. É preciso poder. E aqui está o problema: o principal indicador mostra que a indisponibilidade financeira — em 2020, segundo a Eurostat, 3 em cada 10 europeus não tinham condições para pagar uma semana de férias — é um problema sério.

Mas pode haver solução para tornar este tempo fora mais económico. As agências de viagem que o digam, já que é trabalho anual, com a proximidade de um novo recomeço, estudar escrupulosamente o calendário “de modo a criar uma oferta que responda à elevada procura nessas alturas”, continua Pedro Quintela — e à exceção dos pacotes genéricos, pode sempre personalizar a sua fuga.

Seja como for, recarregar baterias e como fazê-lo, além de ser um direito (o direito a desligar), é também uma decisão individual. Feriados existem, e ainda que possam ser sinónimo de domingo no sofá, não deixam de representar um balão de oxigénio para a sua produtividade laboral — até ver, a semana de quatro dias pode funcionar.