Televisão

Televisão: O mundo oblíquo de Nicolas Winding Refn em “Copenhagen Cowboy”

20 janeiro 2023 9:49

A enigmática Miu (Angela Bundalovic) é a heroína de “Copenhagen Cowboy”

O realizador de “Drive” volta a filmar na Dinamarca, após 17 anos de ausência. “Copenhagen Cowboy”, “uma série de NWR” como agora assina, já está disponível na Netflix

20 janeiro 2023 9:49

Não há nada de David Lynch em “Copenhagen Cowboy”, nadinha mesmo, no modo de filmar, no ritmo, na gestão do tempo, na tensão das personagens, nem sequer em décors, figurinos, ideias de cenografia, zero. E de nada serve comparar ou procurar aí gancho qualquer, à falta de melhor, baralhando dois universos só aparentemente tangentes.

Atirar-se para tal despautério é escorregar no óbvio que nem casca de banana, ou coisa de quem nunca viu Lynch como deveria ter visto. Mas há, sim, em “Copenhagen Cowboy”, muito, muitíssimo do dinamarquês Nicolas Winding Refn, ele que se converteu (para alguns) em realizador de culto graças a “Pusher”, “Bronson” e “Valhalla Rising”, e que Cannes atirou lá para cima em 2011, com “Drive”, aquele pastiche açucarado e sedutor do “Driver” que Walter Hill realizara em 1978 (verdade é que Ryan Gosling, e muito por causa da sua ‘cara-metade’ no filme, Carey Mulligan, nunca mais teve a mesma cândida graça na década que se seguiu). Depois Refn começou a descer na aura das boas graças. E até fez alguns filmes horríveis. Horríveis? Atrozes! Lá tentou ele ir arbitrando ego e autoindulgência com excessos e caprichos, admirador confesso de géneros (o thriller, o noir...) e de estereótipos. Gosta de deixar-se levar por lirismos primários, mitologias básicas pululam o seu universo, é autor sempre pronto a desafiar um grotesco estilizado em HD, que o regozija como artista. “Too Old To Die Young” foi o seu batismo nas séries, não lhe correu nada bem, era uma chatice de detetives e de vidas duplas para a Amazon, por mais que Cannes, que sempre ‘protege os seus’, lhe tenha dado guarida e rampa de lançamento em 2019. Refn tentava sarar as feridas do desastre espalhafatoso que foi “Neon Demon”, realizado três anos antes. Entretanto veio a pandemia e a Netflix, descobrindo-se a reinar despoticamente sobre os pobres confinados, aliciou-o e abriu os cordões à bolsa para “Copenhagen Cowboy”. A série fez claramente muito bem a Refn. Para já, afastou-o do cinema, que não precisa dele para nada, e onde ele andava claramente a patinar à míngua de inspiração. Por outro lado, esta experiência no streaming e na TV permitiu potenciar-lhe ao máximo, em meia dúzia de episódios, todas as suas obsessões, excessos e maneirismos de estilo, a começar pela assinatura já que, creio que pela primeira vez no genérico inicial de uma obra sua, ele dá-se ao desplante de assinar simplesmente “uma série de NWR”, assim como quem diz que a sigla basta para o identificar (como JLG para Jean-Luc Godard) e dispensa demais explicações, estão a ver a ‘pinta’?!...