Televisão

“Cuba Libre”: a revolucionária história da filha do último diretor da PIDE chega à televisão

Beatriz Godinho é a protagonista da nova série da RTP1, com estreia marcada para esta quarta-feira no canal público. O trabalho jornalístico de José Pedro Castanheira e Valdemar Cruz, publicado no Expresso, foi o ponto de partida para esta produção televisiva passada nos anos 1960

21 setembro 2022 11:43

Annie da Silva Pais, filha do último diretor da PIDE, nos anos 60 casada com um diplomata suíço em Havana, desertou da sua confortável vida conjugal para se entregar aos ideais da Revolução Cubana - e grafo isto com iniciais maiúsculas porque, para ela, foi isso mesmo, um farol imenso que provocou a completa transfiguração da sua existência.

A história, objeto de um premiado trabalho jornalístico de José Pedro Castanheira e Valdemar Cruz publicado no Expresso foi, mais tarde, expandida para uma narrativa longa no livro “A Filha Rebelde”. É uma história formidável onde, num trajeto individual, se cruzam destinos e factos históricos de relevância planetária, daquelas que sempre se diz valerem um filme. Valeu agora uma série de televisão, “Cuba Libre”, seis episódios emitidos a partir de hoje na RTP1. A produção, escrita e realização pertencem a Henrique Oliveira - e é o seu melhor trabalho de sempre.

Uma ficção televisiva passada maioritariamente nos anos 60, entre Lisboa e Havana, é um daqueles empreendimentos para o qual é preciso bastante audácia- Transferir uma equipa de rodagem para o outro lado do Atlântico não seria possível

Uma ficção televisiva passada maioritariamente nos anos 60, entre Lisboa e Havana, é um daqueles empreendimentos para o qual é preciso bastante audácia e não pouco denodo. Transferir uma equipa de rodagem para o outro lado do Atlântico não seria possível nas baias orçamentais com que este tipo de produções portuguesas tem de lidar. Exteriores lisboetas a fixar aquela década já quase não há.

Não será por aí, todavia, que se encontram engulhos na narrativa, a produção da HOP! conseguiu ir dando a volta e encontrar, entre Portugal e Espanha, lugares adequados para colocar a ficção. Também encontrou atores e a capacidade de os dirigir - dos protagonistas, onde se destaca, como é óbvio, Beatriz Godinho (de “Esperança” e “O Clube”, ambas disponíveis na Opto) como Annie, até à multitude de secundários que vão cumprindo o seu papel de dar espessura e credibilidade ao raconto (um exemplo, em impecáveis desempenhos pontuais: Álvaro Correia e José Raposo, em Barbieri Cardoso e Rosa Casaco, os inspetores da PIDE que organizaram a Operação Outono que culminou no assassinato de Delgado).

A estrutura da série desenrola-se em formato cronológico, com pontuais flashbacks (Annie criança, o alvorecer da insubordinação) e alguns flashforwards a empurrar-nos lá para o fim, para o momento melodramático onde tudo termina. No caminho o que entrevemos é uma mulher a querer romper com a sua origem, com as regras sociais, com o casamento - sempre, todavia, numa relação de profundo amor filial para com Silva Pais - um percurso de liberdade, porventura mais determinado que feliz.

Na construção de “Cuba Libre” há, no entanto, um elemento problemático: demora a arrancar. Quero eu dizer com isto que, ao não começar com iscos dramáticos que façam o espectador ficar preso, “Cuba Libre” corre o risco de não conseguir que ele passe para o segundo episódio e o terceiro e engrene por aí fora, lá onde as coisas fortes acontecem. E era uma pena que isso pudesse ocorrer. Não só porque a história de Annie é assombrosa, mas porque “Cuba Libre” consegue fazer dela um espetáculo televisivo que nos interessa.