Teatro

“Muito Barulho Por Nada”, de Shakespeare: ver, ouvir e entender

30 julho 2022 21:43

Uma história de cabalas que não se atrapalha com a confluência de tantos territórios num mesmo lugar

miguel bartolomeu

“Muito Barulho Por Nada” é uma comédia que se cruza com a tragédia e que interroga a nossa competência para ler os sinais que determinam o nosso entendimento do mundo. No Convento do Carmo, em Lisboa, até 20 de agosto

30 julho 2022 21:43

“Muito Barulho Por Nada” é uma daquelas peças de Shakespeare cujo género não é fácil de estabelecer. “Comédia”, é como é habitualmente chamada, e assim parece estarem as coisas corretas. Para isso concorrem duas das personagens centrais, Beatriz e Benedito. Ela, sobrinha de Leonato, governador de Messina, onde se passa a ação da peça; ele, um jovem senhor e soldado, de Pádua, na comitiva de D. Pedro de Aragão, com quem acaba de chegar de uma vitoriosa batalha. Beatriz e Benedito já se conhecem, e a peça não se atrapalha com a confluência de tantos territórios num mesmo lugar — Sicília, Aragão, Pádua. O cosmopolitismo deste universo dramatúrgico é parente da velocidade duma ação, e de uma sequência — e simultaneidade — de factos que nada parece conter. Beatriz e Benedito são personagens fortemente caracterizadas. Ele, um jovem alegre e seguro de si; ela, uma jovem igualmente alegre e segura de si. Têm em comum, também, um professo desdém pelo amor e, principalmente, pelo casamento. “Gosto mais de ouvir um cão ladrar às gralhas do que ouvir um homem jurar que me ama”, proclama Beatriz; “na verdade, não amo mulher nenhuma”, contrapõe Benedito. Entre eles existe, como diz Leonato, “uma espécie de guerra alegre”. Beatriz e Benedito vão acabar, previsivelmente, por cair nos braços um do outro. Demasiado orgulhosos para darem o primeiro passo, cabe aos seus amigos urdirem uma cabala que desperte neles a paixão que se esconde debaixo da armadura de palavras e de ações com que parecem defender-se de um destino inevitável. Não só alegres, como dotados de um esplendoroso carácter, não hesitam em reconhecer os sinais de um amor verdadeiro, e aceitar de braços abertos a mudança com a qual o amor transforma as suas vidas. Entretanto, uma outra história corre paralelamente. O jovem Cláudio, nobre florentino, chegado igualmente na comitiva de D. Pedro, e amigo de Benedito, apaixonado por Hero, filha de Leonato, pretende casar com ela — para agrado de todos. Este propósito está na origem de uma outra cabala, em tudo oposta àquela que precipita Beatriz e Benedito nos braços um do outro. D. João, um irmão bastardo de D. Pedro, desempenha aqui o papel de um pequeno Iago, e decide por todos os meios destruir a prevista aliança. A sua intriga visa caluniar Hero, e desta maneira “enganar o Príncipe, vexar Cláudio, perder Hero e matar Leonato”.

Este é um artigo do semanário Expresso. Clique AQUI para continuar a ler.