Música

Do ar à arte: o saxofonista Ricardo Toscano e um dos mais tocantes momentos musicais do ano

1 janeiro 2023 9:34

“Gosto de escrever temas de ato único. Começa-se a escrever e acaba-se no mesmo dia. Ou no momento”, diz Ricardo Toscano

O saxofonista Ricardo Toscano assina, em “Chasing Contradictions”, um dos mais tocantes momentos musicais do ano

1 janeiro 2023 9:34

Perseguir contradições, imagina-se, pode implicar seguir em duas direções em simultâneo. Em tempos, John Coltrane terá tentado explicar o seu ‘método’ a Wayne Shorter, procurando meter em palavras o mistério da criação espontânea: “É como começar uma frase no meio e depois seguir para a frente e para trás ao mesmo tempo.” No seu novo álbum, “Chasing Contradictions”, o saxofonista Ricardo Toscano apresenta-se apenas rodeado pelos elegantes e sabedores Romeu Tristão, em contrabaixo, e João Lopes Pereira, em bateria, assumindo essa missão de seguir em diferentes direções ao mesmo tempo sem ter um farol harmónico para o guiar. Nada que o assuste, percebe-se. Ricardo Toscano conta ao Expresso que é uma questão de “mergulho”, de busca: “Há muitos estilos de jazz, mas o meu preferido é o do digging, quando estás na busca, mas em tempo real. Isso só acontece quando tens o teu material em dia, quando estás em forma, quando estás a ‘acontecer’. Há fases em que acontecemos mais do que outras, mas o trio obriga-nos a estar nessa fase. Se não, não tens argumentos para um concerto inteiro ou para um disco inteiro. Os temas de jazz são coisas curtas. Nós é que fazemos solos longos, sempre a desenvolver e a conversar. Isso, em trio, é muito nu. Se não tiveres o teu jogo de cintura em dia, não consegues fazer isso.” Escutando “Chasing Contradictions”, confirma-se que Toscano é um ‘atleta’ de alto rendimento, um daqueles que são os primeiros a chegar aos treinos e os últimos a abandonar o campo.

Gravado ao vivo — sem público — no Teatro São Luiz, em Lisboa, em março do ano passado, este novo trabalho apresenta um reportório híbrido: duas composições do próprio líder (o tema título e ainda ‘Orange Blossom’), uma do seu baterista (‘Totem’), um standard de Thelonious Monk (‘Played Twice’) e uma tocante reinvenção de um fado [‘Súplica (Vagas Paixões)’]. Contas feitas a todas essas parcelas, o resultado que se obtém no final é uma das mais belas obras lançadas este ano em Portugal: um disco em que Ricardo Toscano assume a plenitude da sua voz, mostrando que o tom que foi moldando no seu alto é único, o verdadeiro pilar da sua distinta voz autoral. Mas Ricardo não é apenas um grande músico, é igualmente, como mais uma vez demonstra, um compositor de mão-cheia. ‘Orange Blossom’, confessa-nos, foi escrita ao piano, num repente: “Não sou grande pianista. Toco, vá lá, ao nível de um compositor”, explica ele, soltando uma gargalhada que traduz a plena consciência do que acabou de dizer. “E gosto de escrever temas de ato único. Começa-se a escrever e acaba-se no mesmo dia. Ou no momento.” Depois da confissão, não se chega exatamente à contrição, mas arranja-se espaço para um desabafo que parece indicar que há uma hierarquia clara estabelecida entre o músico e o compositor: “Nós passamos muito mais tempo a discutir a linguagem que temos em comum do que a impingir a nossa própria.”