Música

Um Diamante na Ilha do Jazz

10 outubro 2022 15:52

Joe Dyson Quintet

rui caria

Da voz ainda em estado de graça de Samara Joy, com passagem pelo arrojo do Pedro Moreira Sax Ensemble, até o rigor e o virtuosismo jorrado pelo notável conjunto de músicos reunidos à volta do projeto Guillermo Klein y Los Guachos, o Angrajazz consolida-se como um dos grandes festivais realizados em Portugal

10 outubro 2022 15:52

Se houve um consenso ao longo da 23ª edição do Angrajazz, realizado entre quinta-feira e este sábado, tem nome de mulher e chama-se Samara Joy. A jovem cantora surgia nos Açores ancorada numa vasta sucessão de excelentes apreciações críticas, e isso fazia elevar as expectativas quanto à sua atuação no festival. Cada concerto é uma prova de fogo, e Samara venceu em toda a linha.

Há sempre uma cantora nas noites do Angrajazz. Este ano o palco foi para esta jovem oriunda de Nova Iorque e é bom que os amantes do jazz vocal fixem este nome. De Samara, com 22 anos, pode dizer-se que respira simpatia ou está ainda naquele estado de graça que a leva a um esforço do qual outros desistem facilmente. Fez tudo para se exprimir em português em vários momentos. Perguntamos-lhe quem lhe ensinara e a resposta surge com o sorriso que tanto a caracteriza: “eu própria a ouvir lições nos meus auscultadores”. Mesmo se curiosos, estes são apenas detalhes na atuação de uma mulher com uma voz poderosa, uma surpreendente, e invulgar para a idade, capacidade de dominar o palco com a maior das naturalidades, além de uma envolvente ligação ao público, despida de qualquer artificialidade. Depois, e não menos importante, há a música, os gostos musicais e as influências percebidas ou assumidas.

A voz, o poder de interpretação, a segurança na abordagem dos temas mais exigentes, convocam nomes como os de Sarah Vaughan, Abbey Lincoln, a quem prestou tributo, Ella FItzgerald, Carmen McRae, Betty Carter, mas também Thelonious Monk ou Fats Navarro. O público não queria deixar partir Samara. Samara, um verdadeiro diamante em avançado estado de polimento, disse não se importar de viver na ilha. No dia 22 deste mês de outubro atuará no Seixal Jazz.

O programa de um festival é sempre uma caixa com muitas guloseimas prometidas, embora depois nem sempre confirmadas. Este ano, quem conseguiu assistir às três partes do festival da ilha Terceira não terá razões de queixa. A segunda noite, então, terá constituído uma espécie de jogada perfeita ao ter o Pedro Moreira Sax Ensemble a anteceder Samara Joy. Corporizam linguagens diferentes.

O universo musical de Pedro Moreira está distante do de Samara, e, no entanto, ambos contribuem para a infinita riqueza do jazz. Do Pedro Moreira Sax Ensemble esperava-se tudo. O disco do saxofonista e compositor lançado o ano passado, intitulado “Two Maybe More” fora considerado o melhor do ano por um vasto conjunto de críticos e divulgadores musicais. A abrir a segunda noite do Angrajazz, o Ensemble constituído por oito saxofonistas, um baterista e um contrabaixo, propunha-se apresentar um trabalho que, como explicou Pedro Moreira, surgia como desenvolvimento e exploração de uma encomenda feita pela Fundação Calouste Gulbenkian para um espetáculo de dança de Sofia Dias, Vítor Roriz e Marco Martins.

Onze anos depois dessa primeira apresentação, e até pelas novas estruturas criadas para o disco, o compositor pedia ao público para esquecer essa origem, mas, ainda assim, criar as suas próprias imagens a partir das sonoridades brotadas a partir do palco. Para lá da pouco comum formação com oito saxofonistas, fica a certeza de ter sido aquele um dos concertos mais intensos e exigentes do festival. Para o público, até por não ser muito frequente o Festival apresentar propostas com uma vertente tão marcadamente contemporânea, e para os músicos. O detalhe das partituras obrigava a um nível de concentração máxima, para que nenhuma nota fora do sítio desequilibrasse aquele meticuloso edifício musical. O espaço para a libertação surgia com os solos distribuídos por quase todos os músicos, por vezes com resultados brilhantes, razão pela qual seria injusto destacar nomes num grupo que, percebe-se e também o sublinharam alguns dos músicos, tem vindo a ganhar cada vez mais consistência e fluidez nas prestações ao vivo. Ficam, por isso, os nomes dos intérpretes: Pedro Moreira e Mateja Dolsak (sax tenor), Daniel Sousa e Ricardo Toscano (sax alto), Francisco Andrade e João Capinha (sax barítono), Bernardo Tinoco e Tomás Marques (sax soprano), Mário Franco (contrabaixo), e Luís Candeias (bateria).

Entre uma certa irreverência do Joe Dyson Quintet (na primeira noite), e a seriedade e consistência do notável conjunto de músicos reunidos à volta do argentino Guillermo Klein (no fecho do Angrajazz), muitos terão sido os que terão hesitado em assumir uma preferência. Se o espetáculo de Joe Dyson vem colocar uma pergunta básica - o que é o jazz? - e apresentar na prática uma possível resposta, Guillermo Klein reúne uma constelação de músicos que são hoje eles próprios a corporizarão de muito do que de melhor se anda a fazer no jazz. De resto, no caso de Klein há uma outra pergunta possível: quando se reúnem num mesmo palco músicos da craveira de um Miguel Zenón (sax alto), Chris Cheek (sax barítono), trompetistas como Diego Urcola e Taylor Haskins, ou até guitarristas como Wolfgang Muthspiel, será possível acontecer um mau concerto? Em tese, sim. Não foi o que sucedeu naquela grande noite, com solos poderosos e um bem coordenado coletivo a proporcionar uma viagem pelo extenso repertório de um grupo que há muitos ano faz do rigor o caminho mais curto para aceder a uma dimensão musical ao alcance de poucos.

Samara Joy

Samara Joy

rui caria

Joe Dyson proporcionou uma situação inesperada. Antes de iniciar o terceiro tema começa por falar das sua origens em New Orleans, evoca o pai, pastor de uma igreja evangélica (dispensavam-se os excertos de muito discutíveis prédicas paternas), prossegue com outras histórias e, por fim, anuncia uma surpresa. Chama para o palco o saxofonista português Ricardo Toscano, um dos expoentes nacionais entre os intérpretes daquele instrumento. Até ao dia anterior nunca se tinham visto ou cruzado. Dyson ouvira-o, porém, numa das sessões informais da tarde organizadas pelo festival e ficara impressionado. Toscano, sem medo, corajoso, agarra no seu sax alto, entrega-se por inteiro e integra-se em pleno no coletivo, com a dificuldade acrescida de estarem a tocar um tema para ele desconhecido e com arranjos feitos para sax tenor. A partir de determinada altura resolve fechar os olhos, ignorar tudo, e deixa-se levar pelo improviso. No final, Dyson não resiste a falar de novo para elogiar a prestação de Ricardo e vincar a circunstância de todos terem acabado de presenciar um momento revelador da magia do jazz.

Um conjunto de músicos que não se conhecem, partilham, porém, valores universais capazes de os porem a dialogar como se há muito tivessem vivências ou projetos comuns. No final ficava um espetáculo muito na linha das coordenadas definidas por músicos como o pai dos irmãos Marsalis, ou o próprio Winton, por exemplo, com todas as influências que lhes estão subjacentes numa vasta constelação de estrelas também evocados por Dyson, como o clarinetista Alvin Batiste. A grande virtude de Dyson, rodeado por músicos tão jovens quanto talentosos, está em conseguir lançar um olhar inovador para um presente em que não abdica de manter pontes com o que de melhor tem sido feito, ou o que a memória conserva como sólidas raízes de uma certa vivência musical.

Belmondo Quintet

Belmondo Quintet

rui caria

Como é habitual, a Orquestra Angrajazz abriu o festival. No dia de fecho, e antes de Guillermo Klein, passaram pelo palco, sem grande história, os franceses do Belmondo Quintet, cuja atuação fica marcada pela excessiva e dispensável teatralização das performances individuais.

Com a próxima edição do Angrajazz já anunciada para 4 a 7 de outubro do próximo ano, fica a promessa de continuidade de um projeto cultural da máxima relevância para o arquipélago dos Açores. Não obstante a firmeza dos apoios locais, essa dimensão do festival parece ser cada vez menos compreendia por entendidas com outras responsabilidades, como a Direção Regional de Cultura, o que torna muito difícil qualquer programação consistente e de qualidade. Tanto quanto o Expresso conseguiu apurar, os apoios, além de cada vez mais escassos, são anunciados ou confirmados apenas a escassas semanas do início do certame, como ainda este ano sucedeu. No dia em que se acabe um hipotético fundo de maneio existente na organização, isso pode ser fatal para uma iniciativa que tem conseguido trazer a Portugal e aos Açores grandes nomes do jazz criado nas mais diversas latitudes.

(O Expresso viajou a convite do Angrajazz)