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“Escrevo quando não tenho”: Eugénio de Andrade faria 100 anos

Eugénio de Andrade nasceu José Fontinhas no Fundão, em 1923, e morreu no Porto, em 2005. Poeta maior da língua portuguesa, começou a publicar aos 17 anos

antónio pedro ferreira

Foi o poeta português mais traduzido a seguir a Pessoa, homem consagrado ao trabalho poético, autor de quarenta obras e mais umas quantas traduções, nascido na Beira Baixa em 1923, falecido no Porto em 2005, que levou uma vida reservada mas disse tê-la vivido plenamente. Faria um século esta quinta-feira

19 janeiro 2023 16:00

E, de repente, passaram cem anos. Ele faria cem anos. Ele, que em 1978 tinha dito: “Daqui a vinte anos espero estar morto e bem morto. Acho a velhice uma coisa horrível.” Viveria ainda vinte e sete anos, um excedente de vida, um sufoco. Veria surgirem mais dois livros, receberia o Prémio Camões e o do Pen Clube Português. E leria, nos “Ensaios sobre Eugénio de Andrade”, de Luís Miguel Queirós, editados pela Asa em 2003, que muitos dos seus melhores poemas foram escritos em plenos anos 1990.

Opinião que talvez fosse justa, e talvez não. Porque, tendo começado a publicar em 1939, o que adveio do passar dos anos e se foi continuamente aperfeiçoando, ao ponto de atingir ‘o melhor’ quatro décadas mais tarde, precisou dessa linguagem inicial, dessa intermediação do tempo e do apuramento da idade.

Nessa entrevista de 1978, dada a este jornal, Eugénio de Andrade corroborava: “Parece-me que tudo quanto fiz, tudo quanto vivi foi para escrever um verso ou um poema. Tenho a impressão de que sacrifiquei tudo- na minha vida, mesmo as pessoas, pela poesia”. Dizia ele que já estivera anos sem escrever um linha e que a poesia se relaciona com os momentos de crise, não de plenitude. “Escrevo quando não tenho.”

Do leitor ao poeta prolífico

O nome com que nasceu foi José Fontinhas, em Póvoa da Atalaia, Beira Baixa, a 19 de Janeiro de 1923. Aos dez anos desaguou em Lisboa devido à separação dos pais, frequentando o Liceu Passos Manuel e a Escola Técnica Machado de Castro. Era comum vê-lo a deambular pelas bibliotecas públicas, leitor que se tornou, até começar a escrever os primeiros versos. Aos 15 anos, enviou-os ao poeta e dramaturgo António Botto, e este quis conhecê-lo. É assim que, um ano depois, publica “Narciso”, o primeiro poema, e que surge a necessidade de um nome literário, um nome dado a si mesmo, Eugénio de Andrade.

Passaria por Coimbra, em 1943, onde convive com Miguel Torga e Eduardo Lourenço. Anos depois, de regresso a Lisboa, ingressou na função pública para exercer o cargo de inspetor administrativo do Ministério da Saúde. Durante 35 anos seria esse o seu emprego, tendo sido transferido para o Porto em 1950. Por essa altura, era já um reconhecido poeta. “As Mãos e os Frutos” recebera o aplauso de críticos e colegas como Vitorino Nemésio e Jorge de Sena. Foi prolífico: do seu catálogo constam uns 40 volumes, quatro dos quais de prosa, e traduções de autores como García Lorca, José Luís Borges, René Char e Yanni Ritsos, das quais se orgulhava. “Não sou um tradutor por ofício. Traduzo apenas por gosto. Na tradução de um poema, parece-me fundamental que o resultado seja outro poema. Só a partir daí se pode falar em tradução”, explicou a Clara Ferreira Alves em 1987.

Também traduzira a poetisa grega Safo, empreendimento sobre o qual significativamente relatou: “É conhecido o meu interesse desde muito jovem pela cultura grega. Hesíodo, Homero, Sófocles, Safo, os pré-socráticos, são fontes onde muita vez matei a sede. Cheguei a arriscar-me a traduzir a poesia de Safo, coisa com que sonhara durante muitos anos. Um dia meti ombros à obra. Trabalhei febrilmente durante quinze dias, como se de criação pessoal se tratasse. A razão era outra: eu estava a apossar-se de qualquer coisa que sempre me pertencera”.

O peso das palavras

Não é por acaso que Saramago tenha dito, sobre a poesia de Eugénio de Andrade, que se tratava de uma “poesia do corpo a que se chega mediante uma depuração contínua. A depuração era um trabalho longo, árduo, imprescindível. “Tudo, em mim, é marcado por uma religiosidade em relação ao poema. Trabalho-o longamente, atento ao peso das palavras, ao parlar materno, sem nenhuma certeza. Não tenho anjos que me ditem os versos, e um poema pode demorar-me um mês. É como a história da vírgula do Yeats”, contaria ao Expresso. Quem com ele convivia, como o afilhado Miguel, recordava como o poeta se fechava das seis horas da manhã às dez da noite “num ritmo absolutamente louco”.

Entrevistado pelo jornalista Valdemar Cruz para o Expresso, por ocasião da morte de Eugénio de Andrade em 2005, o escritor Mário Cláudio falou de um homem “com fragilidades, de que decorriam defesas”, que tinha com o mundo uma relação ao mesmo tempo “receosa e ligeiramente agressiva”. Era generoso, mas não gostava dos medíocres. Perante um académico “muito pomposo” que o quis conhecer e acabara de publicar um livro, recordou Mário Cláudio, Eugénio lançou: “Vou tentar folheá-lo.” Não era pessoa de dar entrevistas e mantinha uma vida à parte, reservada, “plena e intensa”. “Nunca pude nem posso aceitar simulacros”, reconheceu aos 64 anos. Tinha um quê de Borges na aparência e na descarnada frontalidade.

A lista das obras principais é difícil de fazer. “Os amantes sem dinheiro (1950), "As palavras interditas (1951), Escrita da Terra (1974), "Matéria Solar (1980), Rente ao dizer (1992), Ofício da paciência (1994), O sal da língua (1995) e "Os lugares do lume(1998) seria uma delas. “Coração do dia” (1958), “Obstinato rigore(1964), “Branco no branco” (1984), “Vertentes do olhar” (1987), “Os sulcos da sede (2001, o último de todos) poderia ser outra. E as prosas — “Os afluentes do silêncio” (1950), “História de égua branca (1976), “Rosto precário” (1979) e “À sombra da memória” (1993) — não devem ficar de fora. Em 1980, 1981 e 1987 deram à estampa, no Círculo de Leitores, os três volumes da sua “Poesia e Prosa”. A sua obra foi objeto de reedição nos últimos anos sob a chancela da Assírio & Alvim.

Foi o poeta e tradutor mais traduzido da língua portuguesa a seguir a Fernando Pessoa. Quem não se lembra disto?

É urgente o amor.

É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,

ódio, solidão e crueldade,

alguns lamentos, muitas espadas.

É urgente inventar alegria,

multiplicar os beijos, as searas,

é urgente descobrir rosas e rios

e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz

impura, até doer.

É urgente o amor,

é urgente permanecer.

Morreu no dia 13 de junho de 2005, depois de anos de prolongada doença degenerativa neuromuscular. Teve direito a uma campa rasa em mármore branco, desenhada pelo seu amigo e arquiteto Álvaro de Siza Vieira. Na sua casa, na Foz do Douro, no Porto, funcionou a Fundação Eugénio de Andrade. Após a sua extinção, em 2011, esta passou a ser a Casa da Poesia Eugénio de Andrade, cedida em 2020 à à União das Autarquias de Aldoar, Foz, Nevogilde. Por sua vez, o acervo do poeta foi em dezembro de 2022 depositado na Casa dos Livros, que também acolhe os espólios de outros autores, como Vasco Graça Moura, Óscar Lopes, Herberto Helder, Manuel António Pina e Albano Martins.