Livros

O último livro de António Mega Ferreira, o colecionador de palavras

6 janeiro 2023 13:03

Luciana Leiderfarb

Luciana Leiderfarb

texto

Jornalista

António Mega Ferreira (1949-2022) foi jornalista, gestor cultural e, sobretudo, escritor

tiago miranda

“Roteiro Afetivo de Palavras Perdidas” é um convite para entrar numa coleção pessoal de palavras em desuso e no esforço por não as deixar eclipsar

6 janeiro 2023 13:03

Luciana Leiderfarb

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Jornalista

António Mega Ferreira tinha espírito de colecionador. De viagens, de experiências, de conexões entre diferentes elementos, histórias, livros, contextos. Foi um autor prolífico que sempre se interessou por escrever, mas que, a partir do momento em que decidiu que esse seria o único caminho com verdadeiro sentido, se entregou a isso por completo, publicando em cinco anos, de 2017 a 2022, 15 dos quarenta livros que compõem a sua obra literária. Alguns foram romances, houve também poesia. Mas ele dedicou muito do seu tempo a verter no papel observações e impressões que, filtradas pela sua conhecida erudição e curiosidade intelectual, deram origem a objetos literários híbridos, a meio caminho entre reflexões pessoais e a história real dos lugares ou das circunstâncias.

Assim nasceram os livros de viagem, como as “Crónicas Italianas”, de 2022, pela Sextante, que recebeu o Prémio de Literatura de Viagens Maria Ondina Braga — uma viagem pelo território que dá à luz um percurso de pensamento, revisitando Bocaccio, Maquiavel, Don Giovanni, Freud, Rossini, Miguel de Cervantes, Proust, e a relação com Itália como lugar mítico, o lugar onde Mega Ferreira escolheu (re)nascer. Depois deste livro, também em 2022, ele lançaria outro, o “Roteiro Afetivo de Palavras Perdidas”. É outra grande viagem, desta vez pela linguagem, na esperança de “resgatar palavras do relativo esquecimento em que caíram”, palavras que se eclipsaram um tanto, registadas ao longo do tempo numa lista laboriosa. Palavras que se foram perdendo e tiveram um tempo no discurso do autor — como o próprio o admite — e são, por isso, capazes de “desencadear exercícios de reminiscência pessoal sobre os modos, as circunstâncias, o tempo em que elas foram correntes”.