Livros

A saga do homem novo. A estreia portuguesa de Samuel Joseph Agnon, com um livro de 1945

1 janeiro 2023 11:19

Samuel Joseph Agnon, Prémio Nobel da Literatura em 1966

Pela primeira vez, Portugal publica um romance de Samuel Joseph Agnon, pai da literatura hebraica moderna. “Ainda Ontem” foi escrito em 1945 e é uma long saga sobre a emigração dos judeus leste-europeus rumo à Palestina em inícios do século XX

1 janeiro 2023 11:19

Personagem e escritor nasceram perto um do outro, na região da Galícia, disputada pelos Impérios Austro-Húngaro e Russo. Ambos eram judeus que fizeram aliá (emigração) para a Palestina, estabelecendo-
-se em Jafa. Ambos lidam com um hebraico em metamorfose entre língua bíblica e língua coloquial, a meio caminho entre as duas. Pelo menos neste tópico a personagem, Isaac Kumer, poderia ser o alterego do escritor Samuel Joseph (Shai) Agnon. Decerto que o fundador da literatura hebraica moderna lhe terá emprestado muito da sua experiência pessoal — a de um herdeiro do judaísmo leste-europeu que, em fuga dos pogroms de inícios de século, chega a um Levante mítico bem mais complexo do que imaginava.

A língua portuguesa ainda não o tinha lido naquilo em que foi exímio: o romance. Por isso a tradução de “Ainda Ontem”, de Lúcia Liba Mucznik, financiada por crowdfunding, é um acontecimento literário incontornável. Em 1945, quando foi publicada, Agnon já escrevera três romances de relevo, mas é neste que reconstitui as impressões e a realidade de Jafa pelos olhos de um galiciano recém--chegado, empurrado pelos ideais sionistas aos quais um judeu de então não seria indiferente. O livro possui um tom “deliberadamente arcaico”, como assume a tradutora, pleno de léxico rabínico mesmo quando se trata de descrições quotidianas. “Vejo que te fiaste do caráter das pessoas, que quando têm uma dúvida é sabido que não há razão para duvidar” — frases oraculares como esta são comuns na boca das personagens.