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Entrevista a João Luís Barreto Guimarães, Prémio Pessoa 2023: “O poeta contemporâneo não pode ser autista da sua própria sociedade”

31 dezembro 2022 18:27

O novo Prémio Pessoa, dividido entre a arte poética e a arte de esculpir um corpo através da medicina reconstrutiva, defende o poema como uma máquina verbal que se burila. Com 12 livros publicados, lançará “Aberto Todos os Dias” a 12 de janeiro, de onde retira para o Expresso três poemas inéditos

31 dezembro 2022 18:27

Nascido e criado numa família vasta, cujo quotidiano sempre foi muito marcado pela medicina, João Luís Barreto Guimarães, 55 anos, é o segundo de quatro irmãos, três deles médicos e uma médica dentista. Tem o café e o elemento de estranheza e absurdo associado a quem o frequenta como fonte privilegiada de criação, ao ponto de um dos seus livros, “Lugares Comuns”, ser constituído por 52 poemas passados à mesa de um café do Porto, cidade onde nasceu e reside. Faz da viagem um momento de reflexão e recolha de sons, ideias, imagens capazes de rechear o baú onde acondiciona possível material poético. Estreia-se em 1989, aos 22 anos, com “Há Violinos na Tribo”, numa edição financiada pelo pai. A primeira frase do primeiro poema é “estamos dentro dos dias” e na última estrofe escreve: “o tempo avança por sílabas”, que 30 anos depois dá título à sua primeira antologia pes­soal. Esse livro traz-lhe respostas entusiásticas de nomes grandes da poe­sia, como Al Berto, Egito Gonçalves ou Pedro Támen, e abre-lhe as portas da amizade com Manuel António Pina ou Jorge de Sousa Braga, também médico, e com quem alimenta o blogue “Poesia & Ldº.”. Distinguido com prestigiados prémios e traduzido em várias línguas, a sua “Poesia Reunida” (2011)recebeu a primeira crítica alguma vez feita pelo “Times Literary Suplement” a um livro em língua portuguesa não traduzido. Assina a sua poesia com quatro nomes, em homenagem a João Miguel Fernandes Jorge, que vê como um mestre. Tal como Jorge Sousa Braga, Miguel Torga, o alemão Friedrich Schiller, o norte-americano William Carlos Williams ou o checo Miroslav Holub, é médico. E, no entanto, divide-se entre a ideia de se ver como um médico que escreve poesia ou um poeta a exercer medicina.

Após a atribuição do Prémio Pessoa, contactei-o para agendar esta conversa e logo se manifestou aliviado por ter ainda alguns dias, visto precisar de parar e assentar ideias devido ao reboliço criado. O prémio veio ­criar-lhe uma realidade nova?

Veio. A qual ainda não sei avaliar. Em 1950, quando perguntaram ao primeiro primeiro-ministro chinês Zhou Enlai quais as implicações da Revolução Francesa, ocorrida em 1789, ele respondeu: “Ainda é cedo para dizer.” Eu estou quase aí. Quando recebi o telefonema do dr. Pinto Balsemão estava em casa, com a Teresa, a minha mulher, e a Francisca, a minha filha, e preparava-me para ver o França-Marrocos. Foi tanta a alegria do espanto que ninguém verbalizou nada de verdadeiramente surpreendente. Estive muito tranquilo na manhã de quinta-feira a preparar as cirurgias da tarde. Mas assim que, ao meio-dia, foi anunciado o prémio, dali até às duas da tarde o que posso dizer é que, mesmo já tendo recebido a notícia na véspera, foi uma sensação avassaladora. Ao mesmo tempo, sem querer parecer ingrato, não é o fundamental. Estou desejoso de que tudo isto passe e que eu volte aos caderninhos, às canetas, à minha mesa de café, volte à matéria-prima, e continue a desafiar-me a mim próprio para criar objetos originais. Mas nunca mais me vai abandonar a impressão de que o nível de responsabilidade escalou de uma forma brutal.