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Livros: as dívidas são sempre para pagar? David Graeber discorda

24 dezembro 2022 14:58

Luís M. Faria

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Jornalista

David Graeber (1962-2020) foi um antropólogo e ativista norte-americano, que liderou o movimento Occupy Wall Street

pier marco tacca/getty images

Em “Dívida — Os Primeiros 5000 Anos”, o antropólogo David Graeber (1961-2020) analisa a sociedade da dívida, que é a da guerra e a das diferentes formas de escravatura

24 dezembro 2022 14:58

Luís M. Faria

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Jornalista

Graças à crise financeira de 2008, muitos de nós ficámos a saber que na língua alemã havia uma palavra — Schuld — que tanto podia significar dívida como culpa. Esse detalhe era sugestivo, numa altura em que a Alemanha, o principal credor europeu, insistia que os endividados países do sul se submetessem a duros programas de austeridade como condição para receberem ajuda financeira dos países ricos da UE. Houve quem notasse que a dívida em causa era, pelo menos em parte, uma criação deliberada de instituições financeiras desses países, portanto a culpa devia ser partilhada, mas o argumento não colheu junto dos credores ou dos seus representantes.

As dívidas são sempre para pagar? Uma das pessoas que discordaram foi David Graeber (1961-2020). Este antropólogo americano, de quem saíram recentemente outros dois livros em Portugal, foi ativista de movimentos pela justiça global. Em 2011 envolveu-se no Occupy Wall Street (a expressão “nós somos os 99 por cento” terá sido criação sua) e na campanha para perdoar a dívida aos países em desenvolvimento. A sua intervenção ia a par com as atividades profissionais, e não surpreende que nunca tenha conseguido um posto permanente numa universidade americana. Também em 2011 apresentou a primeira história geral desse fenómeno inerente à sociedade humana. Não podia vir mais a propósito naquele momento. Assente em investigação antropológica, económica e histórica que vai desde a Suméria até ao Congo belga, “Dívida — os Primeiros 5000 Anos” analisa as variedades e os possíveis fundamentos morais da dívida, fazendo inevitavelmente uma crítica ao capitalismo, que é bastante menos livre do que se pretende.