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Joshua Cohen, Pulitzer de Ficção 2022: “Quando alguém usa muito a palavra liberdade, fico logo nervoso”

5 novembro 2022 12:09

leonardo cendamo/getty images

Um dos mais talentosos jovens escritores norte-americanos da atualidade fala ao Expresso sobre “A Família Netanyahu”, o romance com que venceu o Pulitzer de Ficção deste ano. “Foram as ‘sitcom’ que ensinaram ao mundo o que era o humor judeu”, defende

5 novembro 2022 12:09

Aos 42 anos, Joshua Cohen, escritor judeu nascido em Atlantic City, mantém a aura de wonderkid que o acompanha desde os primeiros romances de pendor mais experimentalista, atravessados por elaboradas fantasias e delírios pós-modernos, engenhosamente metaficcionais, mas sempre servidos por uma prosa de fino recorte estilístico. As frequentes comparações com Thomas Pynchon e David Foster Wallace, por muito lisonjeiras que sejam, não lhe fazem propriamente justiça, porque Cohen procura claramente um caminho que seja só seu. Talvez numa tentativa inconsciente de se afastar das referências a que começavam a prendê-lo, o seu sexto romance, “A Família Netanyahu”, o primeiro publicado em Portugal, representa uma inflexão. Sátira divertidíssima e erudita ao meio universitário americano, no período que se seguiu à II Guerra Mundial, valeu-lhe já este ano o Prémio Pulitzer de ficção.

Em tempos jornalista, ocasionalmente editor, Cohen assume-se atualmente como escritor profissional, sujeito aos ciclos de promoção dos seus livros. “É por isso que estou aqui, neste quarto de hotel particularmente feio”, disse ao Expresso, falando por videochamada a partir de Nova Iorque. O primeiro momento de verdadeira consagração chegou com “The Book of Numbers” (2015), um complexo e intrincado romance em que um escritor-fantasma, chamado Joshua Cohen, é contratado para escrever a autobiografia de um multimilionário, líder de uma empresa tecnológica, também chamado Joshua Cohen. A maior parte dos críticos não poupou nos encómios. Houve quem visse nele o “Ulisses” da era digital e quem garantisse tratar-se do primeiro grande romance sobre a internet — “como se isso fosse um grande elogio”, comenta Cohen, sorrindo desdenhosamente. Houve também quem não visse na obra mais do que um “pretensioso monumento ao narcisismo”. Mas o verdadeiro triunfo do livro foi o interesse por ele manifestado pelo grande crítico Harold Bloom, homem de outra geração, meio século mais velho, também judeu, um dos mais importantes intelectuais americanos, autor do célebre e polémico “Cânone Ocidental”. Além de louvar a singularidade da escrita de Cohen, Bloom fez questão de convidá-lo para sua casa, em New Haven, no Connecticut, onde começou por lhe conceder uma longa entrevista e logo o tornou visita regular, para conversas sobre tudo e mais alguma coisa.