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Pedro Mexia abre o “Diário de um Homem Supérfluo” de Turguéniev

24 setembro 2022 14:31

Pedro Mexia

Em “Diário de um Homem Supérfluo”, escrito em 1850, Turguéniev baseia-se numa ideia que antecipa o niilismo: a incomensurabilidade entre a experiência e o desespero

24 setembro 2022 14:31

Pedro Mexia

Tchulkatúrin deixa-se morrer, como um velho desesperançado, embora só tenha 30 anos. Não lhe aconteceu nada de anormalmente grave, teve uma infância triste, amores não-correspondidos, nada do outro mundo. Ainda assim, suspeita de uma constante em todos esses acontecimentos e não-acontecimentos: “As pessoas costumam ser más, boas, inteligentes, estúpidas, agradáveis ou desagradáveis; mas supérfluas… não. Ou seja, compreendam-me bem: o universo poderia passar sem elas… é claro; mas a inutilidade não é a sua principal qualidade, não é o seu sinal distintivo e, ao falar delas, não é a palavra ‘supérfluo’ a primeira que nos vem à boca. Mas eu… de mim, nada mais de pode dizer: supérfluo — e pronto. Um homem supranumerário (…).” Diz estas coisas como se fosse um pessimista schopenhaueriano, mas mais por enfado do que por niilismo ideológico.

O conceito de ‘niilismo’ teve grande circulação num magnífico e controverso romance de Turguéniev, “Pais e Filhos” (1862), ao pé do qual “Diário de um Homem Supérfluo” (1850) parece apenas uma ‘novela sentimental’. Escrito aos repelões, com trivialidades domésticas, autoacusações e interrupções bruscas, este texto baseia-se numa ideia que de algum modo antecipa o niilismo: a incomensurabilidade entre a experiência e o desespero. Conhecemos inúmeras personagens russas ociosas, passivas, derrotadas, indiferentes, desistentes, inúteis, em Pushkin, Gontcharov, Lermontov ou Tchékhov, e a ficção do ocidentalista Turguéniev não deixa de ser tipicamente russa, com latifundiários, duelos, bailes e jovenzinhas radiosas. Mas ao mesmo tempo é capaz de esboçar uma crítica genérica ao romantismo que conduz à pergunta: “Será o amor um sentimento natural?”