Exposições

A elegância chique de braço dado com o folclore. A fotografia de moda de Georges Dambier (também) no Portugal dos anos 50

25 junho 2022 22:14

A passagem de Dambier por Portugal: Gunilla numa foto do catálogo da Tricosa registada na Nazaré em 1957

archives georges dambier

Uma pequena mas muito bem investigada exposição da fotografia de moda de Georges Dambier, que trabalhou em Portugal, à vista no Museu Nacional do Traje. O que é a fotografia de moda? E a moda é um sonho?

25 junho 2022 22:14

O que é a fotografia de moda? É geometria e arquitetura, isto é, corte e costura; é retrato e é nu tapado — a velha ideia da quadra de Augusto Gil no “Canto da Cigarra” (1910), onde o poeta, perante a “descaradona de roupa à janela”, observa que aquela “camisa sem dona lhe lembra a dona sem ela”. Porque não também fotografia de rua ou paisagem? Atenta à coreografia do corpo humano, será também rotina gestual congelada numa atitude singular e decisiva (à Cartier-Bresson). Para mim, sempre foi vida transformada momentaneamente em arte. Quando começou a fotografia de moda? Algures no século XIX, provavelmente em 1856 através da centena de retratos de Virgínia, condessa de Castiglione, amante de Napoleão III, por Pierre-Louis Pierson e Adolphe Braun. Mas é com o surgimento na América de revistas de alvo feminino, como Harper’s Bazaar (em 1867) e Vogue (em 1892), que a fotografia confere autenticidade e respeito à moda. Vira o século, e no centro que é Paris a moda é tida como respectable — que não é o mesmo que respectueuse — e é para ser levada a sério. Será? A moda foi das primeiras a aproveitar o Surrealismo dos anos 20 e 30, por exemplo nas fotos de Man Ray (o seu “Violino d’Ingres”, com os efes das aberturas do instrumento pintados no dorso perfeito de Kiki de Montparnasse, foi recentemente vendido em leilão por 12,4 milhões de dólares).

Não será por acaso que o primeiro ‘homem da máquina’ a ser contratado oficialmente pela Vogue como ‘fotógrafo de moda’ (1913) tenha sido o Barão Adolphus (também Adolph ou Adolf) de Meyer, nascido (talvez) em Paris, filho de um Judeu alemão, educado em Dresden e cidadão britânico a viver em Londres e a trabalhar em Paris. As monarquias tinham os dias contados — Faruk, o último rei do Egito, afirmaria em 1948 que “depressa haveria apenas cinco reis: o de Inglaterra, mais os reis de Espadas, Paus, Copas e Ouros” — mas a aristocracia persistiria noutras profissões. A fotografia de moda era uma delas, até porque durante a primeira metade do século XX alguns dos melhores fotógrafos de moda estavam associados a casas reais. Curiosamente, muitos deles foram também grandes fotógrafos de teatro, cinema e ópera (onde reinava um sistema aristocrático de estrelato). Cecil Beaton trabalhou para a edição inglesa da “Vogue”, fotografou o casamento escandaloso dos Duques de Windsor em 1937, e tornou-se o fotógrafo favorito daquela que se intitulou duplamente rainha, a rainha Isabel, rainha-mãe, e de nove em cada dez estrelas de cinema. Homossexual, terá tido um caso com Greta Garbo e inventou a imagem de Audrey Hepburn no filme “My Fair Lady” (1964).