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O que distingue “Mal Viver” de “Viver Mal”? João Canijo responde: se um é um covil sombrio, o outro até “dá para rir”

“Viver Mal”: a mãe que não deixa a filha viver (Beatriz Batarda e Leonor Vasconcelos)
“Viver Mal”: a mãe que não deixa a filha viver (Beatriz Batarda e Leonor Vasconcelos)

“Mal Viver”, Prémio do Júri em Berlim, e o seu reverso “Viver Mal” chegam esta quinta-feira às salas. Um olhar impiedoso sobre mães que secam a vida daqueles que geraram. O olhar cinematográfico de João Canijo

Tudo se passa num pequeno hotel balnear no norte do país, gerido e laborado por uma família de mulheres, com uma cozinheira/governanta para tarefas estruturantes. Os homens ou foram-se embora, ou morreram, ou ambas as coisas. Em qualquer caso, estão banidos daquela existência, salvo uma breve urgência de luxúria, saciável numa casa de banho, amplexo de passagem. Em “Mal Viver” tudo se passa numa caverna, num espaço concentracionário onde os esparsos hóspedes são vultos em trânsito. Também terão as suas vidas, os seus choques, as suas feridas, estarão no outro filme “Viver Mal” onde serão figurantes as mulheres do grupo do hotel. E só com os dois painéis saberemos tudo, em todo o lado, ao mesmo tempo. Enfim, quase tudo, porque as almas não se desnudam assim, do pé para a mão. Dão-nos vislumbres, nada mau.

No íntimo do realizador, João Canijo, “Mal Viver” nasceu sob magnas referências de teatro e de cinema. Foi o próprio que explicou, em conversa, uma destas tardes: “A origem está no Strindberg. E está em ‘Sonata de Outono’, em ‘O Silêncio’ e em ‘Lágrimas e Suspiros’. Tudo isto tem a ver com Strindberg, porque o Bergman tinha muito a ver com o Strindberg. E fui ler quase todas as peças dele. Fundadoras do filme são ‘Credores’ e ‘Pai’ — por causa de ‘Pai’, o título, na candidatura ao ICA, foi ‘As Filhas do Enforcado’, no concurso de 2018.” Mas isso foi apenas um ponto de partida. Strindberg e um conceito: “A ansiedade. A ansiedade que impede de viver e pode impedir de amar. Especialmente impede muito de viver. A ansiedade implica ter medo da vida, o que é terrível.” Sobre estas fundações Canijo escreveu um argumento que, já se sabe, seria completamente retrabalhado pelas atrizes nos ensaios, método que o cineasta desenvolveu desde “Sangue do Meu Sangue”, longas sessões de apropriação/reescrita/representação que, depois, são transcritas e voltam a ser ruminadas até se chegar ao texto final. “O resultado afastou-se muito do Strindberg, aliás, as atrizes não leram as peças”, revela — e o nome do dramaturgo sueco nem aparece no genérico.

“Mal Viver” nada tem a ver com os filmes imediatamente anteriores de João Canijo. De onde vem esta súbita mudança? “Vem de começar a querer falar das coisas que me interessam, que me dizem respeito, profundamente. Acho que, com ‘Fátima’, acabei a parte do realismo social português. Agora já é outra coisa.” E é terrível, o retrato dos laços parentais no feminino que o díptico traça, mães impossíveis que fazem o deserto em volta. “Sou eu que acho: as mães, por muito bem que tentem fazer, acabam sempre por asfixiar os filhos e, mais ainda, as filhas. As avós dão cabo da vida das filhas e as filhas acabam por dar cabo da vida das netas, num ciclo imparável. É uma minha ideia.” Capital é a figura de Piedade, central em “Mal Viver”, seca de afetos, por um lado odiosa, por outro personagem de tragédia, que a atriz desempenha sob um capuz facial de fechamento, com um cãozinho como fetiche, nada de psicologia.

Depois, o seu desempenho profissional no serviço aos clientes, aquele descrever dos vinhos, o linguajar de escanção como máscara, acaba por funcionar como suplementar cortina sobre a sua verdade interior que nunca conheceremos. Só o desespero, lá para o fim. É o amor condicional de uma mãe, por contraste com o amor incondicional de “Sangue do Meu Sangue”? “O amor dela não me parece que seja condicional, a ansiedade é que a impede de mostrar que é incondicional e de amar de uma forma natural. Tem tanto medo da vida, quer controlar tanto tudo e sente uma responsabilidade tão grande por ser mãe que, embora tenha sido, provavelmente, uma mãe quase perfeita, foi uma mãe que não soube transmitir amor à filha.” Mas há outras mães, sobretudo em “Viver Mal” (no trailer apresentado acima). “Há uma que não aparece, uma mãe-galinha (a mãe de Jaime/Nuno Lopes, na voz telefónica de Lourdes Norberto), quer continuar a ter o filho para ela o tempo todo; há a Elisa/Leonor Silveira, megera intratável; é há a Judite/Beatriz Batarda a fazer uma projeção tão grande das suas frustrações na filha que a impede de viver.” Sempre famílias de catástrofe.

“Mal Viver” marca a entrada de João Canijo no primeiro plano do cinema europeu, com o Urso de Prata — Prémio do Júri, este ano no Festival de Berlim

Os dois filmes têm estruturas e tonalidades muito diferentes. Embora ambos sejam conjugados em modo de verificação dos infernos das relações parentais e sentimentais, “Mal Viver” é um covil, um huis clos, cromaticamente sombrio, um lugar de dilaceração, enquanto “Viver Mal” é mais aberto, solar (ambos a mostrar a versatilidade e a inteligência dramática da direção de fotografia de Leonor Teles) — “e dá para rir”, lembra Canijo, embora seja um riso fero, convenhamos. A ideia de fazer uma obra em duas portadas estava presente desde o início dos trabalhos. “A produção teve duas etapas. A ideia inicial era fazer dois filmes, se o hotel pudesse ter clientes. Ter clientes implicava mais dinheiro. Por isso, só quando o financiamento acrescido chegou é que se pôde concretizar o ‘Viver Mal’. Já estávamos muito avançados — nem sei se não tínhamos já terminado — os ensaios de construção do ‘Mal Viver’. Podia perfeitamente passar-se num hotel vazio. Com clientes, ganha outra dimensão e outra intensidade, porque elas não estão a viver numa bolha, completamente sozinhas, estão, quer queiram, quer não, a ser observadas pelos clientes.” Para as histórias dos três grupos de hóspedes, o realizador usou outras tantas peças de Strindberg, “Brincar com o Fogo”, “O Pelicano” e “Amor de Mãe”. E o labor sobre os textos não teve a amplitude do método do outro filme. Neste “os atores de cada núcleo leram atentamente a peça que lhes correspondia e o trabalho deles foi adaptar os personagens a si mesmos. ‘O Pelicano’ nem se afasta muito da peça do Strindberg”.

Comum ao díptico é a minúcia da construção do espaço sonoro. Mas, ao contrário de outros filmes de João Canijo, em que a massa sonora acrescentava informação ao que estávamos a ver — introduzindo, por exemplo, sons da rua, o que se passava no quarto ao lado, conversas fora de campo — nestes essa massa sonora é composta por fragmentos de coisas que nos lembramos do filme anterior ou do que vamos ver a seguir, conforma a ordem que o espectador escolher para aceder aos painéis da obra. É um efeito peculiar — um efeito reminiscência — que não funciona se o espectador só vir um dos filmes. “Mas pode pô-lo a imaginar coisas, pode ser perturbador”, sugere o realizador, com inteira razão. O que não há é música. “Nunca há”, reforça Canijo, “porque mesmo que a música seja paradoxal, mesmo que pareça ser contra a cena, nunca deixa de ser ilustrativa, acaba por ser sempre uma tentativa de orientação da emoção pretendida. Isso eu recuso há muito tempo”.

“Mal Viver” (cujo trailer é apresentado acima) marca a entrada de João Canijo no primeiro plano do cinema europeu, com o Urso de Prata — Prémio do Júri, este ano no Festival de Berlim. “E marca a minha entrada na terceira idade”, ironiza, a fazer 66 anos em dezembro. O que significa? “Abre imensas portas. Abre-me as portas de ter um futuro próximo bastante descansado e previsível. E dá-me um grande conforto e um grande consolo. Há aquela frase, ‘mais vale tarde do que nunca’, mas, se calhar, era agora. Eu considero, mal fora que não considerasse, ‘Mal Viver’ o meu melhor filme. Provavelmente cheguei ao ponto em que posso ir à competição dos grandes festivais internacionais.” Não era injustiça antes, agora é que, deveras, merece? “Acho que sim. Embora considere ‘Fátima’ um filme injustiçado. Mas ‘Fátima’ sofre de um problema: a versão que circula é a versão curta e a versão longa é 30 vezes melhor. E como a versão longa era, de facto, longa (202 minutos), os festivais torciam um bocado o nariz.”

Ainda tenho espaço de jornal para falar de interpretação, para sustentar que é em “Viver Mal” que mais brilham os intérpretes? Seria injustiça tal dizer, face ao desempenho coral, em “Mal Viver”, da trupe habitual do realizador (Anabela Moreira, Rita Blanco, Madalena Almeida, Cleia Almeida e Vera Barreto). Mas a harpia que Leonor Silveira incarna em “Viver Mal” é de tal maneira atroz e exemplar — e surpreendente, face aos registos habituais da atriz que Manoel de Oliveira inventou — que destacá-la é quase uma emergência.

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