Cinema

Cinema: “Babylon”, o novo do realizador de “La La Land”, é o primeiro desencanto de 2023

Diego Calva, ao volante, e Brad Pitt, de pé, em cena no novo filme de Damien Chazelle

Prometia uma celebração orgiástica de Hollywood nos anos 20, acaba comboio-fantasma de eventos pontuais. O crítico Jorge Leitão Ramos dá-lhe duas estrelas

19 janeiro 2023 9:29

Jorge Leitão Ramos

Jorge Leitão Ramos

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Jornalista

Meia dúzia de anos depois de “La La Land”, Damien Chazelle regressa a Hollywood, pela via de uma viagem retro à primeira Idade de Ouro do cinema americano, os roaring twenties, a que o sonoro e a crise de 1929 vieram pôr termo. Não o faz, todavia, em direção aos filmes então produzidos, nem aos pioneiros que os edificaram (só Irving Thalberg é nomeado em concreto, mas não se referindo a sua importância no processo), antes prefere uma ideia vaga com duas âncoras: a lendária licenciosidade da comunidade cinematográfica desses dias e uma espécie de ingénua inocência nos modos de fazer cinema.

Da licenciosidade é matriz a faustosa e luxuriante orgia no arranque do filme, da qual os promotores publicitários extraíram a sua imagem de marca (desde logo patente no cartaz), ou os consumos aditivos — de álcool, de cocaína ou de sexo — que os personagens centrais praticam; do modo primevo de fazer cinema ressaltam as primeiras cenas de rodagem, em casinhotos abarracados no deserto, ou o exemplo das agruras das filmagens quando o som fez a sua estrondosa entrada.

Tom geral: comédia sarapintada de drama humano (umas quantas pinceladas sem vera textura). Tom que a primeiríssima cena do filme sublinha até ao impropério quando um elefante defeca em abundância sobre dois personagens que lhe estão atrás. Um deles é mesmo um dos protagonistas de “Babylon”, o mexicano Manuel Torres (Diego Calva), homem para todo o serviço (até empurrar elefantes…) de um produtor a promover uma festa bacântica na sua mansão. O homem tem recursos de desenrasca, vão torná-lo muito útil a várias entidades empregadoras e acabam por o conduzir ao lugar de executivo num estúdio.

Mas o que, de verdade, molda a sua vida é uma aparição na noite dessa festa primordial: uma mulher sumariamente vestida de vermelho, ao volante de um carro, derruba uma estátua implantada a meio do parque. Não é uma vedeta, na realidade, é apenas uma jovem petulante e plena de descaro que quer aceder à função sem ter sido convidada, a ver se consegue entrar no mundo do cinema seja lá como for. Chama-se Nellie LaRoy (Margot Robbie) — e é já um nome de guerra para uma mulher que diz de si própria ser uma estrela (mesmo sem nunca ter estado num plateau) porque isso é algo que não se aprende a ser, ou se é ou não se é. Anote-se, desde logo, o esplendoroso trabalho da atriz, um dos maiores trunfos de um filme onde eles não abundam. Duas cenas, memoráveis: a dança na grande festa (sim, ela consegue entrar, Manuel mete-a lá dentro no exato momento em que se apaixona por Nellie) e a primeira filmagem, com as lágrimas e a postura insolente.

O terceiro protagonista é Jack Conrad (Brad Pitt), típico galã dos anos 20 com o bigodinho à Clark Gable e o olhar a liquidificar a vontade das mulheres que ele vai trocando como quem muda de camisa sem se amarfanhar demasiado. Em torno há uma miríade de figuras secundárias, como a colunista Elinor St. John (Jean Smart) — é dela uma das boas cenas do filme, quando explica a Conrad o lado efémero dos gostos do público e a perenidade gloriosa de ter a imagem retida nos filmes —, o produtor George Munn (Lukas Haas), em constante infelicidade amorosa, a exótica e lésbica Lady Fay Zhu (Li Jun Li), de dia a escrever intertítulos para os filmes, à noite criatura de canções libidinosas, a realizadora Ruth Adler (Olivia Hamilton), cheia de garra e vontade de perfeição, ou o trompetista negro Sidney Palmer (Jovan Adepo) que põe o jazz no coração dos talkies.

Tudo gente que gostaríamos de conhecer melhor e que passa, célere, às vezes parecendo um tributo às quotas, não se sabendo se em homenagem ao que a História do Cinema elidiu (as mulheres pioneiras dos filmes, por exemplo), se às minorias que as normas do politicamente correto determinam. Em qualquer caso, não são esses secundários que faltam à profundidade do olhar do realizador, é toda a arquitetura dramática, menorizada face à ideia de celebração (que acaba curta) e ao pendor exuberante da marca Chazelle. Quem acede a esta obra com a mente no “Hollywood Babylon” de Kenneth Anger ou o olho posto em “Serenata à Chuva” de Kelly/Donen, desiluda-se: magra é a lascívia, baço é o fascínio.