Cinema

Cinema: Porque é que devemos ter medo de uma boneca loira com um metro e vinte?

13 janeiro 2023 8:43

M3gan (Amie Donald) entre a tia Gemma (Allison Williams) e a sobrinha Cady (Violet McGraw)

“M3gan” é uma divertida comédia de terror sobre a saturação tecnológica da sociedade contemporânea

13 janeiro 2023 8:43

Na última década, a inteligência artificial constituiu o centro de uma série de distopias futuristas que, num registo melancólico e/ou ponderoso, trataram de anunciar o eclipse do humano ou, pelo menos, a necessidade de repensar as suas fronteiras: foi assim em “Uma História de Amor”, de Spike Jonze, em “Ex Machina”, de Alex Garland, em “A Vida Depois de Yang”, de Kogonada… Percorrendo embora os mesmos caminhos, “M3gan” (o segundo filme do neozelandês Gerard Johnstone, que se baseia numa história de James Wan) opta por encará-los à luz, menos solene, da comédia de terror. O que ele nos propõe é, em síntese, a sátira de uma cultura saturada de mediações tecnológicas — sátira essa que, apesar de ser protagonizada por uma boneca diabólica, está pelo seu espírito crítico mais próxima da obra de Jordan Peele do que, propriamente, de sagas como “Chucky” ou “Annabelle”. Mas vamos por partes.

Tudo começa com a remissão do espectador a um lugar comum do cinema de terror, nomeadamente: a cena da orfandade traumática. Fala-se, no caso, da de Cady (McGraw): uma rapariga de oito anos que, logo na primeira sequência, perde os pais num acidente de viação. Quem, um pouco a contragosto, assumirá a custódia de Cady será a sua tia Gemma (Williams), uma engenheira robótica na casa dos trinta e cinco que vive obcecada com o seu trabalho numa empresa de brinquedos e, em especial, com a sua mais recente criação — uma boneca com um metro e vinte de altura e dotada de inteligência artificial (a M3gan do título) que, graças à sua capacidade de aprendizagem, poderá vir a revolucionar a indústria dos brinquedos. Descobrindo-se incapaz de cuidar sozinha da sobrinha (com a qual não consegue criar qualquer tipo de laço emocional) e sentindo-se pressionada pela sua empresa para lançar a boneca no mercado tão cedo quanto possível, Gemma juntará perversamente o útil ao agradável: a pretexto de tentar mitigar o trauma de Cady, ela usá-la-á como cobaia, oferecendo-lhe para efeitos de teste uma versão experimental da boneca.