Cinema

“E se tudo isto for um sonho?”, pergunta-se no filme “Um Pedaço de Céu”. É o novo de Michael Koch

30 dezembro 2022 16:42

Michael Koch realiza um drama, com Michèle Brand, Simon Wisler e Elin Zgraggen nos principais papéis. O crítico Francisco Ferreira dá-lhe quatro estrelas

30 dezembro 2022 16:42

Não é comum partilhar-se nestas páginas um estado de estupefação causado por um filme, mas foi nesse estado que “Um Pedaço de Céu” nos deixou, há quase um ano, ia então a meio o concurso do Festival de Berlim. Estupefação porque, a priori, pouco ou nada prometia esta nova longa-metragem do suíço Michael Koch (n. 1982, Lucerna) — e, no entanto, está aqui um dos filmes mais seguros de 2022.

O trabalho anterior do cineasta, a longa de estreia “Marija” (passou em Locarno), não deixara especial marca. Dos atores deste “céu” nada se sabia, até porque nenhum deles jamais havia representado. Koch instala-nos desde o primeiro instante numa comunidade fechada, assaz conservadora, de camponeses alpinos habituados à rudeza das altitudes elevadas. Pouco faladores, são fiéis aos seus costumes ancestrais, vivem sobretudo da criação de gado e não são propriamente as pessoas mais simpáticas do planeta. Nas primeiras sequências teme-se que “Um Pedaço de Céu” se torne apenas mais uma ficção mascarada de documentário com fundo etnográfico e é neste enquadramento que conhecemos Marco (Simon Wisler), que trabalha numa quinta, e Anna (Michele Brand), empregada de balcão. O namoro deles é recente. Marco é um tipo psicologicamente vulnerável (a morte de uma vaca pela qual tinha especial afeto deixa-o destroçado), Anna quer apostar num recomeço após uma relação falhada, tem uma filha pré-adolescente para educar. “E se tudo isto for um sonho?”, diz-lhe ela no início, pensando num futuro melhor a dois. A estupefação nossa vem da extraordinária evolução emocional deste casal, quando Koch começa a pôr aquele amor à prova. Um hit dos anos 90, “What Is Love (Baby Don't Hurt Me)”, de Haddaway, ganha então um eco tremendo à medida que o cineasta conduz as suas personagens para um melodrama de uma sobriedade glacial, profundamente comovente a cada passo, não ficando longe do que a germânica Valeska Grisebach já provou saber fazer neste género. / Francisco Ferreira