Cinema

Agenda de família de São Jorge ganha nova vida em documentário sobre os Açores. A ligação narrativa “Entre Ilhas” faz-se pelo mar

“Entre Ilhas” é um documentário contemplativo e nostálgico da realizadora e antropóloga visual Amaya Sumpsi. Além de incluir imagens poderosas das ilhas e dos seus caminhos marítimos, o filme apoia-se em depoimentos de açorianos sobre como era viver sempre à espera do próximo barco. Chega a 30 de junho aos cinemas

14 junho 2022 10:30

João Pacheco

Atenção que “queijo da ilha” é coisa que só existe em conversa de continentais pouco informados. Sim, o queijo mais famoso dos Açores é queijo curado, feito com leite de vaca na ilha de São Jorge. Mas o arquipélago tem nove ilhas habitadas, muitas delas com queijos interessantes ao ponto de viajarem para outras paragens de Portugal e do mundo. Por exemplo, o queijo curado da ilha de São Miguel é muito recomendável e já quase omnipresente em grande parte de Portugal. E na ilha do Pico, a Cooperativa Leite Montanha começou a produzir há dois anos o queijo cremoso “Ilha dos Mistérios”, feito com leite de vaca. Estas obras-primas gastronómicas podem ser encontradas nas lojas especializadas que disputam clientela no centro de Ponta Delgada, numa competição freudiana entre o Rei dos Queijos e o Príncipe dos Queijos.

Mas os mistérios dos Açores são cada vez mais divulgados por todo o lado. E, além dos queijos, chegam agora a todo o país muitos outros produtos gastronómicos deste arquipélago retratado há quase um século por Raul Brandão, no livro “As Ilhas Desconhecidas”. Nessas páginas, o escritor relata uma viagem que fez à Madeira e aos Açores de barco, o único meio disponível à época. Apesar de muito ultrapassado pelo tempo, este livro conta com a boa prosa de Raul Brandão (1867-1930) e merece continuar a ser lido, até como fonte de memória histórica. Outro livro muito recomendável a quem quiser estar nos Açores através da leitura é “Mulher de Porto Pim”, de Antonio Tabucchi.

Mesmo sem livros para ajudar, quem vive agora em Portugal continental conhecerá cada vez melhor o arquipélago dos Açores, mesmo que ainda não tenha lá posto os pés. É que nos últimos anos temos recebido imagens e sons açorianos numa maré que parece não querer desacelerar, em todos os meios de comunicação social, nas redes sociais e também no cinema. O que também é certo é que as ligações aéreas são agora muito mais frequentes e menos caras do que acontecia ainda há poucos anos, facilitando as viagens e democratizando o contacto dos açorianos com Portugal continental e permitindo a cada vez mais não-açorianos a exposição à cultura e às belezas naturais dos Açores. Cuidado, a exposição prolongada pode provocar habituação.

Claro que este assunto não é a preto e branco. São óbvias as vantagens sociais trazidas pelo turismo, até porque a região já sofreu de níveis de desemprego e de pobreza que pareciam eternos. Mas há também grandes perigos paisagísticos e ambientais a ter em conta, porque a escala excessiva do turismo e da construção pode com facilidade destruir o equilíbrio frágil de paisagens e ecossistemas únicos no mundo.

E depois há as memórias. O tempo em que o arquipélago ainda era ligado sobretudo por barco é revisitado agora num filme que vai estrear nos cinemas a 30 de junho. Chama-se “Entre Ilhas” e é um documentário contemplativo e nostálgico da realizadora e antropóloga visual Amaya Sumpsi. Além de incluir imagens poderosas das ilhas e dos seus caminhos marítimos, o filme apoia-se em depoimentos de açorianos sobre como era viver sempre à espera do próximo barco. Com histórias de amor e morte, tempestades e nascimentos, bordados e vacas, grávidas e lancheiras transportadas da ilha do Pico para a ilha do Faial. Neste filme, a ligação narrativa entre as várias ilhas é o mar, além das agendas antigas guardadas por uma família de Urzelina, na ilha de São Jorge. Começam quase sempre pela data e pela meteorologia daquele dia, partindo depois para outros acontecimentos também dignos de anotação. O ritmo agora é outro, com menos isolamento e dificuldades diferentes. Sabe bem espreitar para aquele mundo tão recente que parece ter existido noutra galáxia, vivendo agora no mar das memórias açorianas. Que nos lembremos, nenhum queijo provoca esquecimento.