A Revista do Expresso

Braga vs. Compostela. Podem as relíquias roubadas em Portugal explicar a rivalidade ibérica?

17 julho 2022 8:37

O “roubo santo” das relíquias de Braga, que em 1102 foram levadas para Compostela, alimentou durante séculos várias teorias sobre as origens da rivalidade entre Espanha e Portugal

17 julho 2022 8:37

Qualquer turista ou peregrino que alguma vez tenha cruzado as portas da Catedral de Santiago de Compostela já terá certamente ouvido falar do poderoso bispo galego que, desde a sua eleição, no início do século XII, conseguiu transformar a outrora pequena povoação à beira de uma encruzilhada num dos mais importantes templos da cristandade na Idade Média. D. Diego Gelmírez, ou Xelmírez, como se diz em galego, é um personagem incontornável de qualquer guia turístico da cidade do fim do “caminho” ao ter convertido a suposta relíquia do apóstolo de Cristo num símbolo de poder e de um poder nem sempre apenas divino. Um hábil estratego que, com arcas de ouro enviadas ao Papa, alianças pendulares entre poderes rivais e uma moral subordinada à realpolitik da época, conseguiu sagrar-se arcebispo metropolitano numa Península Ibérica dividida entre reis cristãos e califas muçulmanos, na qual peregrinações, guerras e bodas redefiniam fronteiras e poderes ao ritmo dos avanços militares.

Entre os turistas estrangeiros que hoje posam para selfies frente à fachada da Catedral de Santia­go ou imaginam sobre a velha calçada de granito um passado medieval de cruzadas e guerras de território entre senhores feudais, bispos e papas; são os visitantes portugueses os únicos a não poderem ignorar o nome de Xelmírez como se fosse mais um personagem da toponímia local, pertencente a uma história longínqua. Até aos anos 80 do século passado, a Catedral do Apóstolo era depositária de umas relíquias bem menos conhecidas que as de São Tiago, mas cujo espetacular roubo há mais de 900 anos, protagonizado por Gelmírez, encerra uma parte valiosíssima da história de Braga e da Galiza e que se cruza com os acontecimentos que, algumas décadas mais tarde, iriam precipitar a criação do território português como um reino independente.