A Revista do Expresso

Crise académica de 1962: noite das mil prisões foi a maior operação policial da ditadura

15 maio 2022 10:51

Joana Pereira Bastos

Joana Pereira Bastos

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Jornalista

d.r.

Há 60 anos, na madrugada de 11 de maio de 1962, perto de mil estudantes foram detidos na Cidade Universitária. Foi a maior operação policial da ditadura e o auge da crise académica, que abalou o regime e marcou o despertar político de toda uma geração

15 maio 2022 10:51

Joana Pereira Bastos

Joana Pereira Bastos

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Jornalista

O prazo esgotara-se às 19h45. Era essa a hora-limite do ultimato para abandonarem a cantina que desde a véspera ocupavam em protesto. O braço de ferro, semana a semana mais tenso, arrastava-se há quase dois meses e culminava ali, naquele impasse, sem que ninguém arredasse pé. Com o avançar da noite, juntaram-se cada vez mais. Chegaram raparigas, saídas de casa às escondidas, com os sapatos na mão para não fazerem barulho no corredor. E muitos jovens, ainda estremunhados, acordados pelos telefonemas de colegas. A partir das cabinas do Campo Grande, a ‘convocatória’ tinha-se espalhado. Corria que podia haver prisões e só uma multidão conseguiria evitá-lo. Ao início da madrugada, já eram cerca de 1000. Acotovelavam-se nas galerias, junto às mesas, sentados no chão. Não havia um metro livre. O objetivo tinha sido conseguido. Pensavam que era impossível prender tanta gente. Mas não. Eram 3h30 quando a polícia chegou, de metralhadora na mão e ordem para cortar pela raiz a inédita revolta dos estudantes. Nunca se tinha visto nada assim.

“Parecia um cenário de guerra”, recorda Helena Pato, que à época integrava a direção da Associação de Estudantes (AE) da Faculdade de Ciências. Secundado por uma força de 300 homens que montara cerco à cantina, o capitão da PSP, Horta Veiga, “entrou de rompante, todo emproado, de bota alta e pingalim militar, determinado a levar toda a gente”. Mas não estava à espera daquela multidão. As dezenas de carrinhas da polícia de choque estacionadas à porta nunca chegariam para todos. A solução, ali improvisada, foi mandar vir autocarros da Carris.