A Revista do Expresso

Paulouro das Neves: a diplomacia como causa

17 abril 2022 21:55

José César Paulouro das Neves (1937-2015) era formado em Direito e ingressou no MNE em 1964. A vida diplomática levou-o a ocupar postos no Brasil, Moçambique, França e Itália

d.r.

Considerado “o melhor diplomata da sua geração”, Paulouro das Neves deu um depoimento ao historiador Pedro Aires Oliveira, agora publicado em livro ao lado de oito dos seus textos mais significativos

17 abril 2022 21:55

Jovem jurista licenciado em Coimbra, com uma formação de esquerda, José César Paulouro das Neves entrou no MNE em 1964. Pouco antes do 25 de Abril, na Conferência de Genebra, teve “o contacto penoso com a realidade crua do nosso isolamento diplomático, da insensatez das nossas posições e da violência dos ataques dirigidos à política colonial de Lisboa”. Em outubro de 1974 foi colocado em Brasília, onde esteve durante todo o período revolucionário, enquanto o Brasil sofria a ditadura dos coronéis. Desses anos evoca uma experiência dolorosa: as entrevistas, como conselheiro de embaixada, com vários oposicionistas brasileiros, de que resultaram cinco pedidos de asilo diplomático. Conta que “nenhum dos governos portugueses desse período, designadamente o V Governo Provisório, considerado mais à esquerda, respondeu favoravelmente a tais pedidos, invocando a nossa prática diplomática e — só para a embaixada — a famosa razão de Estado, já que qualquer decisão positiva teria efeitos devastadores numa relação bilateral à beira da rutura”. Ao rever este episódio 40 anos depois, considera que o Estado português “fez bem”.

No regresso às Necessidades, chefiou a repartição da África, Ásia e Oceânia, tendo contribuído para a elaboração de uma nova política africana após a independência das cinco colónias portuguesas. Uma política que partia do princípio, que sempre postulou, de que “aos interesses portugueses convinha como interlocutores em Angola o MPLA e em Moçambique a FRELIMO, movimentos garantes de unidade territorial e de uma memória cultural da metrópole”.