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Presidenciais 2021

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João Ferreira na luta contra os seus novos inimigos: os obstáculos da pandemia e o risco da abstenção

NUNO BOTELHO

Nas eleições de domingo, e tendo em conta sondagens que o colocam com 5%, o candidato dramatiza: “Está tudo em causa”. O que é preciso é que as pessoas vão votar. Ferreira continua na estrada e esforça-se por garantir que terão condições de segurança para isso, quando chegarem às mesas de voto, e que essas condições existem na sua própria campanha - para quinta-feira já há duas ações alteradas ou canceladas

21 Janeiro 2021 7:49

Nuno Botelho

Nuno Botelho

Fotojornalista

A carruagem grafitada parece abandonada, assim como tudo à sua volta. À porta do comboio, um pequeno compasso de espera. O grupo aguarda ordens. Uns terão de entrar pela parte de trás da locomotiva, outros entram à frente, ao lado de João Ferreira. O candidato sobe para a carruagem que tem por todo o lado garantias de estar “covid clean” e instala-se; os jornalistas espalham-se por bancos espaçados. A comitiva corre a abrir janela após janela, até garantir que o espaço é arejado.

NUNO BOTELHO

Estamos no décimo primeiro dia de campanha oficial e João Ferreira percorre a linha do Vouga, num pequeno trajeto entre Oliveira de Azeméis e São João da Madeira, para mostrar o desinvestimento e, como comenta um membro da comitiva, “o desmazelo a que a linha foi deixada”. Percorrendo o olhar pela lista de paragens, mais um motivo de espanto: parte da linha, entre Oliveira de Azeméis e Sernada do Vouga, só pode ser percorrida de táxi, retomando-se depois o comboio, que não parece mais do que um pequeno conjunto de carruagens fantasma.

À chegada, João Ferreira recebe a visita de Cristina Tavares, a trabalhadora que ganhou um processo por assédio moral contra a corticeira Fernando Couto, e prepara-se para fazer declarações aos jornalistas para focar a importância do investimento na ferrovia e a "coragem" desta mulher trabalhadora. Não é fácil: como em quase tudo nesta campanha, é preciso testar e ensaiar para ver os moldes que funcionam em cada momento. É melhor falar ao ar livre. E é ali, fora da estação de comboios e já de guarda-chuva a protegê-lo, que João Ferreira é questionado sobre o facto de continuar em campanha, apesar de mais um pico de infectados (14.647) e mortos (219).

O candidato explica: “Fizemos uma diminuição das iniciativas e é possível que haja uma nova diminuição, vamos ver”. Mesmo assim, estavam nesta altura marcadas seis para quinta-feira, mas a questão não é a quantidade, justifica: “Não vale só o número, valem também as características e a duração das ações”, que devem garantir que não há “ajuntamentos”, que é “escrupulosamente cumprido” o distanciamento e que há medidas de proteção. A candidatura aposta em momentos muito diferentes dos que se veriam noutras campanhas: ora em salas com lotações abaixo do recomendado pela DGS, normalmente arejadas, ora ao ar livre, muitas vezes em encontros com trabalhadores que se reúnem em círculos, no meio da rua, para conversar com o candidato.

A preocupação com as normas é uma constante durante todo o dia, que é também o mais dramático desde que a pandemia começou. De manhã, Ferreira visita uma exploração agrícola e entre sacos de batatas amontoados e as cenouras que ajuda a puxar da terra, conversa com o proprietário sobre as dificuldades que têm com os baixos preços impostos pela concorrência. De repente começa a chover e o candidato comenta: “Isto é bom para as cenouras, mas para nós… Temos de tomar conta da nossa saúde”. Todos para dentro. O agricultor, Silvino Tomás, ainda tenta oferecer um almoço rápido à comitiva, mas Ferreira rejeita falando das horas - agradece “de coração”, mas já está atrasado - ...e certamente com as regras sanitárias em mente.

NUNO BOTELHO

À tarde, em São João da Madeira, é mais difícil entrar numa sessão dirigida a mulheres e especialmente mulheres trabalhadoras: o controlo que se encontra sempre à entrada das ações, com o ‘posto’ de desinfeção e a medição obrigatória da febre, é mais atento e ninguém entra sem passar por ele. É lá dentro que Ferreira ouve testemunhos como o de Fernanda Simões, tão “comovida” que mal pode falar, mas que acaba por contar que a sua cabelereira, de 19 anos, diz que vai votar em André Ventura porque “é preciso meia mão de Salazar” - “gostaria de que as mulheres novas não se deixassem iludir”. Ali, o candidato ouve os anseios das participantes e deixa uma garantia: não está ali para ser “um candidato homem” com “uma bela moldura feminina”, mas para defender os direitos delas - do Trabalho a temas fraturantes, como a interrupção voluntária da gravidez.

Mais uma ação, mais uma ronda de avisos: no último encontro do dia, na Póvoa de Varzim, o candidato visita já de noite o porto de pesca e, pelo meio de explicações técnicas sobre as diferenças entre a pesca de cerco (peixes de cardume) e polivalente (“tudo o que vier à rede”) vai pedindo aos interlocutores para se afastarem, para haver distanciamento, e explicando que não pode ir ao interior das instalações, porque é mais seguro estar ao ar livre. Mas voltará lá mais tarde, quiçá como presidente, graceja.

NUNO BOTELHO

Mote para comentar a sondagem da universidade Católica RTP/Público, conhecida nessa noite, e que lhe atribui 5% dos votos - à frente de Marisa Matias -, numa altura em que continua a apelar ao voto e a pedir que se assegurem condições de segurança num domingo. Mas Ferreira acredita num "muito bom resultado" e espera ir além dos 5% mesmo com a perspetiva de uma abstenção recorde, que pode vir a ser o inimigo comum dos candidatos. Ferreira vai tentando mobilizar o eleitorado - "está tudo em causa", garante -, mas com os números pandémicos a tarefa afigura-se impossível - para quinta-feira estavam previstas seis ações, mas o dia acabou com uma cancelada e outra convertida para versão virtual.